PROJETO À espera da liberdade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2003
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
A espera pela liberdade, pelo dia de sol, pelas visitas, pelos benefícios. A rotina do interno de uma penitenciária é pautada basicamente por esse tempo. Tal temática norteou o trabalho da oficina desenvolvida com presos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), dentro dos Projetos de Maio do Filo.
Na última quinta-feira, um grupo de seis internos fez uma apresentação para imprensa e convidados da montagem ''A Espera''. Trata-se do resultado do projeto desenvolvido e monitorado pelo ator Alexandre Mendes desde março, inicialmente com dois encontros semanais.
A idéia foi retratar a angústia da longa espera do preso e, para isso, o coordenador desenvolveu um roteiro baseado na peça ''Esperando Godot'', de Samuel Beckett. Fragmentos do texto pontuam a criação coletiva, que traz ainda depoimentos dos internos costurados por elementos da cultura popular, como o rap e a capoeira. Dessa forma, a oficina também valorizou duas formas de expressão cultural marcantes na comunidade carcerária.
Alexandre Mendes, que no ano passado desenvolveu na PEL um projeto de teatro apoiado na utilização de máscaras, diz que na época já havia pensado no texto de Beckett, que por sinal foi apresentado em outras penitenciárias. Ao iniciar o projeto este ano, ele não mergulhou no texto com os internos. Optou por jogos teatrais e improvisações baseadas no tema e colheu depoimentos sobre a espera de cada um dos presos.
A oficina reuniu no início 12 internos, mas foi concluída com seis rapazes. Reinaldo, Jonas, Edson, Sidney, Alan e Marcelo entraram em cena. ''Esse trabalho está sendo importante pra mim. Notei uma transformação enorme depois que me envolvi nessa oficina'', comenta Edson de Souza, 28 anos.
Em sua segunda participação nos Projetos de Maio, Reinaldo Fernandes Cruz, 23 o rapper Stilo diz que oportunidades como essa só têm a acrescentar. ''Vou estar envolvido em quantas chances tiver; é só abrirem as portas pra gente'', ressalta o interno, que no ano passado teve permissão para sair da penitenciária para gravar seu primeiro CD.
Os projetos sócio-culturais realizados na PEL desde 2002 não possibilitam aos internos desenvolver um processo contínuo. Além das questões operacionais que envolvem todo o esquema de segurança (equipes disponíveis, necessidade de revista e escolta para entrar na penitenciária), a permanência dos detentos no projeto é incerta, já que eles estão sujeitos a penalidades ou podem ser transferidos. Esse ano, apenas dois participantes da oficina anterior continuaram no projeto.
''A Espera'' também foi apresentado aos familiares dos internos em uma visita de domingo. ''A nossa grande conquista desse ano foi respeito maior por parte do público'', avalia Alexandre Mendes.


