A arte que cada vez mais invade as ruas agora começa a fazer parte da escola. Conhecido como grafite, que explora através do spray as mais variadas técnicas do desenho frequentemente vistas em muros e paredes, essa manifestação artística pela primeira vez vai fazer parte do dia-a-dia de crianças das 3 e 4 séries da Escola Municipal Professora Lourdes Gobi, no Jardim Ana Rosa, em Cambé. Ontem, o refeitório da escola se transformou em uma sala descontraída para a primeira aula de grafitagem. Uma vez por semana, em contraturno, as crianças participam dessa atividade extracurricular que deve durar cerca de dois meses. O público-alvo totaliza 256 crianças.
No comando da novidade, está Alex de Andrade Origuela, 21 anos, que voluntariamente está realizando o projeto de ensinar grafite para as crianças com apoio da Secretaria de Cultura de Cambé na compra de material para as atividades práticas. A idéia é ''grafitar'' internamente os muros da quadra esportiva que será anexada à escola. ''Vai ficar legal e pretendemos pintar a parte externa também'', comentou Origuela. Em uma feliz coincidência, no mesmo dia em que ele apresentou o projeto à escola, a Folha divulgou uma matéria de capa sobre grafite, que foi vista pela diretora do estabelecimento. ''Foi uma ótima coincidência e ficamos empolgados com o projeto. Aqui as crianças não ficam restritas ao conhecimento de sala de aula'', ponderou a diretora Rosa Granero Capel.
Profissionalmente Alex trabalha como pintor de parede, mas o seu sonho é conseguir se dedicar exclusivamente ao grafite. O seu gosto por essa atividade surgiu há um ano quando participou de um trabalho de evangelização que ensinava esse tipo de técnica, no estado do Espírito Santo. ''Comecei a ver que tinha jeito para a coisa e não parei mais'', lembrou ele, que pretende cursar Artes Plásticas. ''Algumas pessoas ainda têm preconceito sobre o grafite, mas é uma arte que traz uma mensagem positiva'', afirmou o jovem professor, que também integra o grupo de rap ''Redenção X''. ''Esse tipo de projeto é mais comum em cidades maiores, mas espero que cada vez tenhamos mais apoio local.''
Aliás, durante a aula, Origuela está sempre transmitindo mensagens para as crianças sobre o não consumo de drogas e bebidas. Ex-dependente químico, Origuelo vê hoje com imensa alegria o trabalho que está realizando. ''A satisfação é enorme em saber que posso compartilhar coisas boas com as crianças. Algumas já demonstraram na primeira aula que desenham muito bem e estão ansiosas para colocarem a 'mão na massa''', destacou.
A aluna Eloísa Araújo de Oliveira, 9 anos, disse que adorou a aula. ''Aprendi que não se pode pichar no muro sem pedir autorização. Também não devemos usar drogas e bebidas. Elas fazem a gente perder o controle e fazer coisas ruins. O meu sonho é conseguir fazer a pintura de um rosto.'' Já o aluno Jorge Humberto Alves de Araújo, 9 anos, quer muito grafitar um ''carro de arrancada''. ''Desses bem bonitos, que a gente vê em corridas. E quem sabe poderemos ser artistas quando a gente crescer, depois dessas aulas'', ressaltou.
Nas aulas, os alunos também fazem um trabalho de pesquisa sobre o ''esqueleto'' do personagem que querem criar. Noções de anatomia, proporção, sombra e também desenhos em movimento são abordados. Origuela explica que vários tipos de bicos são utilizados no spray. Para cada bico, um tipo de efeito pode ser conseguido. É imprescindível também o uso de máscaras. Como material de apoio didático, Origuela usa a apostila desenvolvida por Marcelo Eco, considerado um dos melhores grafiteiros do Brasil. ''O grafite não é vandalismo; é mensagem construtiva. Ensino que não se pode pintar monumentos históricos e nem em locais públicos sem autorização'', reforçou Origuela, que pretende com esse trabalho também proporcionar um intercâmbio entre vários grafiteiros da região, que serão convidados a participar do projeto.

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