PROJETO - Garota quer mostrar seu talento
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de agosto de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quem a vê atendendo os clientes da loja, nem imagina que aquela menina já escreveu um romance. Os próprios colegas de colégio, ao serem informados da proeza literária, custam a acreditar. ''Outro dia, mostrei o registro de autoria do livro para um amigo e ele falou que era falsificado'' conta, rindo, Ana Maria Canavezi.
Aos 17 anos, ela aguarda a publicação de ''O Passado se Revela, Principalmente na Alma'', que lhe tomou 8 meses de dedicação no ano passado. Trabalhando numa loja de confecções no centro de Londrina, a jovem escritora acredita que seu texto poderá oferecer alguma luz para adolescentes em conflito.
''A história traz uma ajuda para a auto-compreensão das pessoas, tratando de situações vividas por muita gente'' diz. Ela cita Renato Russo como sua principal influência na elaboração do texto. ''Já tive uma fixação por ele. Antes não ouvia outra coisa, só a Legião Urbana. Isso passou, mas acredito que meu jeito de escrever tem muito a ver com o jeito das músicas dele''.
Resumidamente, a trama conta a saga de Silvana, personagem que aos 15 anos vê seu mundo cor-de-rosa desmoronar ao descobrir verdades dolorosas sobre sua família. Daí em diante, ela rebela-se contra tudo e todos passando por relações turbulentas de amor e amizade, além de experiências amargas como envolvimento com drogas, gravidez precoce e aborto ocasionado por um empurrão.
O primeiro enredo que veio à cabeça da autora trazia um fim trágico. Depois, foi alterado para um desfecho esperançoso. Ana Maria lembra que o exercício da narrativa em prosa surgiu após uma breve incursão pela poesia. Sua explicação é curiosa: ''Eu queria escrever um livro de poesia, mas achei que, ao juntar muitas poesias, algumas ficariam parecidas com outras e desisti da idéia. Achei que uma história seria mais interessante'' conta.
Antes, chegou a assinar alguns textos de auto-ajuda, o que talvez tenha inspirado as lições de vida contidas no romance. O livro, de 157 páginas, foi escrito à mão. A fase em que esteve debruçada sobre a trama foi também o período de estudos em que concluiu o 2º grau numa escola pública da Vila Portuguesa. Algumas passagens da história, aliás, foram rascunhadas em sala de aula.
''Escrevi muito quando estava triste ou indignada com alguma coisa'' lembra. ''Escrevia e mostrava para os colegas. Alguns gostavam das situações narradas e queriam ver a continuação. Outros falavam que não estava legal e me faziam rever e mudar alguns trechos. Às vezes, eu ficava uma semana sem escrever uma linha, outras vezes me empolgava e escrevia a noite inteira. Na verdade, o livro não chegou a interferir na minha vida. Foi divertido escrevê-lo''.
Os amigos foram importantes para a autora construir as personagens. ''Peguei coisas que eu sentia e que meus amigos sentem e vivem. Peguei um pouco de cada um e também do noticiário da TV. Nem tudo é inventado, porque senão seria um livro sem sentimento'' explica. Sem computador em casa, ela recorreu a um digitador para copiar o manuscrito. O trabalho rendeu uma pequena dor-de-cabeça, já que muitas frases não foram fielmente transcritas.
''Acho que ele não entendeu algumas palavras que escrevi. Os erros da digitação se juntaram aos meus próprios erros de português'' observa. Na época, preocupada, ligou para o escritório de Direitos Autorais para perguntar se os tropeções na língua poderiam barrar uma eventual publicação do livro. Lá, informaram que as editoras costumam fazer correções nos originais enviados pelos autores.
Ana Maria confessa que nunca foi boa em Português e Redação, aliás, nunca foi uma aluna exemplar na escola, o que explicaria a desconfiança dos colegas e até de professores sobre seu talento com as letras. Até colocar o ponto final no texto, ela refez diversos trechos. Não conseguiu, porém, mudar o começo da história, que considera ''chato''. ''Todo começo de livro é chato. É sempre do meio para o fim que eles ficam interessantes'' argumenta.
Ana Maria faz 18 anos em outubro. Às vésperas de alcançar a maioridade, planeja voltar a estudar. Pretende prestar vestibular, mas não definiu o que quer seguir, embora admita simpatia por cursos ligados à arte. Como toda garota de sua idade, já foi de frequentar baladas. ''Mas hoje em dia estou mais reservada'' diz. ''Saio do trabalho e chego cansada em casa. Ouço música, leio alguma coisa e durmo cedo. De vez em quando, visito amigos e no domingo gosto de ir à igreja''.
Buscando contatos para publicar seu romance, anuncia seu próximo passo: inscrever o projeto do livro no Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).


