Curitiba - Thales dos Santos, de 13 anos, nunca foi ao teatro. Mas quando teve oportunidade de se matricular num curso de artes cênicas, não teve dúvidas: ''Quero me apresentar nas ruas, nas escolas, igual aparece na televisão'', diz. Assim como ele, dezenas de outros adolescentes da Vila Parolin, em Curitiba, não tem uma idéia clara sobre o que é teatro, mas desde que começaram a ter aulas na ONG Cores da Rua, que atende comunidades em situação de vulnerabilidade, estão aprendendo que a arte pode render mais do que o entretenimento. Pode transformar a vida.
Esse é o lema da ONG que surgiu há cinco anos e já atendeu há cerca de 400 crianças e adolescentes em projetos que envolvem música, teatro e dança. Thales é um dos cerca de 15 alunos que atualmente tem aulas de teatro com a atriz Silvia Contursi, voluntária da Cores da Rua. O grupo de meninos e meninas entre 10 e 14 anos estão aprendendo a se conhecer, a brincar com a voz, com a postura corporal e a conquistar os seus objetivos individuais. ''Acho que aqui, a gente aprende a falar certo'', arrisca Thales, que sonha em se apresentar para um grande público. ''Eu gosto muito de rir, mas quando tem que falar sério, eu falo. Acho que o teatro é isso'', complementa Bebel Pereira, de 14 anos.
A professora Silvia Contursi ressalta que o mais importante do trabalho, independente do produto final, é que as crianças aprendam a trabalhar em grupo. Essa é a primeira vez que ela atua como voluntária na ONG, apesar de ser veterana em ministrar oficinas. ''Não vejo diferença nenhuma de outros alunos. A fome de arte é a mesma, independente do poder aquisitivo que os pais das crianças têm'', considera. E essa fome pode ser saciada na ONG de várias maneiras. No local, uma casa de esquina na própria Vila Parolin, dezenas de voluntários, quase todos artistas conhecidos no cenário cultural curitibano, doam o tempo e o conhecimento em oficinas de música, teatro e dança para alunos da comunidade.
Este ano, a ONG fez uma parceria com uma escola estadual local, que cadastrou alunos interessados nas oficinas, que acontecem na própria sede da instituição. Mas nem sempre, a ONG teve uma local próprio. No início, os projetos aconteciam no estúdio do músico e produtor Hélio Santana, um dos fundadores da Cores na Rua. ''Eu sempre desenvolvi trabalhos com a população carente, até que surgiu a idéia de criar a ONG'', conta Santana. Desde a fundação, ele ocupava o cargo de presidente, até ser substituído por Eleonora Greca, bailarina do Teatro Guaíra. Hoje, o músico atua quase que em tempo integral na ONG, dando aulas e cuidando também da parte burocrática, o lado mais difícil do trabalho, segundo ele. ''Captar recursos para os projetos é o que dá mais trabalho'', diz.
Além de enfrentar os percalços da falta de recursos a ONG também tenta convencer os patrocinadores de que é preciso ressaltar a cultura local. ''A gente precisa aprender a valorizar o que é nosso, a reavivar a nossa cultura''. Dentro desse paradigma, a ONG já desenvolveu quatro projetos. Em 2000, o ''Tamborango'' foi buscar as origens do fandango paranaense e envolveu 70 jovens e crianças num espetáculo que mesclava a dança, o teatro e a música. As apresentações, além de Curitiba, se estenderam para o litoral paranaense, berço do gênero. No ano seguinte a Cores da Rua desenvolveu um projeto em parceria com a Associação Paranaense de Desenvolvimento do Potencial Humano, envolvendo mais de 100 crianças e adolescentes com necessidades especiais.
Em 2003, o público alvo foi meninas que estavam em duas casas-abrigo da Fundação de Ação Social (Fas), um órgão de administração municipal. ''Foram dois projetos, voltados para dança erudita e para dança afro'', conta Santana relembrando que foram ministradas também oficinas de maquiagem, figurino e trabalhos corporais. As oficinas envolviam alunas de arte das escolas e faculdades de Curitiba, que trabalhavam como voluntárias. No mesmo ano, foi desenvolvido o projeto ''Congolelê'', um resgate das congadas do Paraná, envolvendo 60 crianças e o projeto Batukelas, também de músicas e danças da cultura popular paranaense.
O ano passado foi dedicado a buscar recursos para que finalmente a Cores da Rua tivesse uma sede. Hoje, além da casa, alugada e mantida com a ajuda de recursos municipais, a ONG ganhou ajuda de mais voluntários. Além das oficinas citadas, também estão sendo desenvolvidas oficinas de Dança de Salão e o projeto Pé de Piá, que reúne quase todas as modalidades da dança. Para o ano que vem, a instituição vai desenvolver o projeto ''Tambores Urbanos'', um resgate da cultura negra do Estado. ''A proposta é que esse projeto também termine com um espetáculo'', adianta Santana.
Assim como o Congolelê e o Tamborango, o Tambores Urbanos também terá apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, recurso que a ONG utiliza para manter viva a vontade de contribuir para a formação artística das crianças de comunidades carentes. ''Buscar recursos, ao mesmo tempo que a gente se envolve no trabalho é desgastante. A gente tem que fazer tudo, mas quando encontro os alunos que passaram por nossas oficinas e vejo que isso fez diferença na vida deles, percebo que vale a pena continuar'', conclui Santana.

Serviço:
- A ONG Cores da Rua fica na Rua Nunes Machado 2333, em Curitiba. Quem tiver interesse em trabalhar como voluntário, apoiar a instituição ou saber mais sobre a ONG pode ligar para (41) 3334-3594.

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