São Paulo - Não se faz mais intercâmbio só para aprender inglês e ter a experiência de viver no exterior. O número de jovens brasileiros de classe média e alta que vão aos Estados Unidos para trabalhar legalmente cresce 30% ao ano. E os empregos não são nada relacionados à área que estudam; universitários viajam para ser garçons, operadores de máquinas de parques de diversões, manobristas ou crupiês em cassinos.
Programas conhecidos como ''work and travel'' foram permitidos pelo governo americano a brasileiros há alguns anos, mas ganharam força recentemente. Viraram a sensação das empresas de intercâmbio, que antes focavam seus serviços em cursos de inglês. A estimativa é de que, no fim de 2006, cerca de 8 mil brasileiros entre 18 e 28 anos embarquem para uma temporada de 4 meses de trabalho nos EUA. Eles são selecionados pelos recursos humanos das empresas estrangeiras no Brasil, em cerca de 20 feiras de recrutamento que ocorrem neste e no próximo mês.
Os trabalhos têm sempre pouca exigência intelectual e estão disponíveis durante o inverno nos EUA, que começa em dezembro. Diferentemente do que ocorre no verão, os jovens americanos não estão em férias e, portanto, não trabalham nessas ocupações. É preciso falar um pouco de inglês, mas os empregadores não exigem fluência.
O atrativo maior é o salário de até R$ 12 por hora - mais gorjetas. Os brasileiros ainda se oferecem para exceder turnos de 40 horas semanais e ganham mais de US$ 2 mil por mês. Rafael Polzin Elias, de 22 anos, voltou ao Brasil com US$ 10 mil. Estudante de Administração de Empresas, foi vendedor de ingressos e instrutor numa estação de esqui. ''Não tinha feito intercâmbio durante a escola e queria ter experiência no exterior. Quando vi, estava ganhando dinheiro.''
O valor do programa, de cerca de US$ 2 mil, é pago facilmente com os primeiros salários. Os jovens ainda ganham fluência no inglês e comemoram a sensação de independência. ''A gente amadurece, não tem pai ou mãe pra pagar a conta'', diz Alexandre Maschion, de 26 anos, que trancou a faculdade de Marketing duas vezes para trabalhar em um cassino. Lá, arrumou por conta própria outro emprego, na faxina de uma fábrica de donuts. Os programas em geral exigem que o jovem esteja estudando no Brasil e permitem que ele volte quantas vezes quiser, desde que passe pela seleção novamente.
''Todo candidato consegue um lugar'', diz o diretor da empresa de intercâmbio World Study, Marcelo Cansini. Ele conta que a busca por programas de trabalho já superou a procura por cursos de inglês, que custam, em média, US$ 2.500 por mês. Para Cansini, é um programa ''mais democrático'' pela possibilidade de ganhar dinheiro e não só de gastar.
A empresa promove no País a seleção para diversos cassinos nos EUA e para a Universal Studios. Os candidatos precisam se submeter a exames que detectam uso de drogas e apresentar uma certidão negativa de antecedentes criminais. A Student Travel Bureau (STB), que tem parceria com Disney, hotéis Ritz Carlton, Hyatt e estações de esqui, também deve enviar cerca de 3 mil estudantes para trabalhar fora neste ano. Quase todos os programas com esse perfil no Brasil são para os EUA.
Segundo o consulado americano, há alguns tipos de vistos de intercâmbio para trabalho no país e o mais comum é o que tem duração de quatro meses, com viagem durante as férias. Outra possibilidade são os programas de Au Pair, para meninas que querem trabalhar como babás e estudar nos EUA durante um ano. Neste ano, o consulado aumentou o número de entrevistas para concessão de vistos de trabalho a estudantes, por causa da procura.

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