Programas caça-fantasmas
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de julho de 1997
Agência Estado 
Em Londres, fantasmas são levados a sério. Um dos mais conhecidos é o de uma mulher que ronda o Banco da Inglaterra. Há 300 anos essa alma penada assusta corretores da Bolsa de Valores, bancários e banqueiros com seu choro triste. Vestida de negro, ela costuma ser vista sentada nas escadarias do prédio, na Threadneedle Street, à espera do irmão enforcado em 1694 sob a acusação de roubo. Esse fantasma foi visto pela última vez no ano passado e noticiado pelo jornal mais influente do mundo financeiro internacional, o Financial Times.
Perto dali, uma figura alta, de capuz, atravessa as paredes da Catedral de Saint Paul. Ninguém jamais viu o rosto desse vulto encapuzado. Os traços estão diluídos numa sombra. Atrás das paredes da capela, que dá pra a praça principal da catedral, ficava uma escada de madeira que subia para lugar nenhum. A escada, por onde a figura soturna se movia, foi descoberta numa das últimas vezes que a capela foi reconstruída. Incêndios e guerras destruíram cinco vezes Saint Pauls, hoje a segunda maior catedral católica do mundo.
Essa região é a mais antiga da cidade. As primeiras construções datam de mais de 2 mil anos, erguidas pelos romanos. Londres foi o porto mais importante do Império Romano. Limitava-se a um aglomerado de terra às margens do Rio Tâmisa. A atual cidade é toda reconstruída, tendo sobrado muito pouco do passado. A primeira grande devastação ocorreu com um incêndio colossal, em 1666, que consumiu 30 mil casas, acabou com dois terços da cidade, deixou 100 mil desabrigados e destruiu 85 das 109 igrejas.
Dedo serrado Londres tornou a sofrer durante o bombardeio alemão na Segunda Guerra Mundial. Uma das construções que sobreviveu ao ataque é a torre da Igreja Saint Andrew by Wardrobe, em Wardrobe Court, que teoricamente deveria ter sido uma das primeiras a desabar. Com a ajuda de forças estranhas, ela se mantém de pé. As lendas remontam a tempos antigos, quando um monge recém-chegado na paróquia ouviu durante três dias os sinos soarem sozinhos de madrugada. Preocupado, ele subiu até a torre onde os carrilhões, imensos, não poderiam se mover sozinhos. Sem entender, voltou à cela. Três dias depois, soube que o vigário tinha morrido.
Todas as igrejas londrinas até hoje abrigam um pequeno cemitério. Em geral, os portões de grades altas dão para ruelas que preservam o traçado de 300 anos. Um dos cemitérios mais conhecidos é o que fica em frente da Saint Anns Blackfriars, na Church Entry, a mesma rua onde se localizava a casa de inverno dos atores da companhia de Shakespeare.
Bem perto dali, um desses cemitérios parece ter sido palco de um dos casos mais assustadores até hoje objeto de comentários. É a história de uma jovem prometida em casamento que morreu às vésperas da cerimônia. Os parentes decidiram, então, enterrá-la vestida de noiva e com um anel de ouro, presente de noivado. Os coveiros observaram o brilho da jóia e, no cair da noite, voltaram à tumba. Em vão, tentaram arrancá-lo. Munidos apenas de faca de afiar penas de ganso, decidiram serrar o dedo. Quando chegaram ao osso, a noiva, moribunda, se sentou no caixão com o vestido ensanguentado, esbugalhou os olhos e soltou um grito aterrorizante. Um dos coveiros enlouqueceu e acabou confinado a um hospital. Nessa mesma noite, a jovem foi vista batendo à porta da casa dos pais. Nada mais se sabe sobre ela.
Stepping Out : faz o trajeto de Londres assombrada e vários outros. Na verdade, o roteiro conta mais a história da cidade que a de fantasmas. Saídas aos domingos, às 19h, do hall da Estação Blackfriars. Tel. (0044181) 881-2933. Custa 4,50 libras.
London Walks : também faz o roteiro fantasmagórico e dezenas de outros programas. O Fantasmas da Velha Cidade (Ghosts of the Old City) tem saídas aos domingos, às 19h30, do metrô de St. Pauls. Tels. (0044171) 624-3978, 794-1764 e 911-0285. Custa 4,50 libras.
Thomas Bodies Ghost Walk : todos os dias, às 20h, da Estação Blackfriars, na Saída 1. Tel. (0044171) 256-8973. Custa 4 libras.


