Muita gente ficou surpresa com a indicação de uma animação ao Oscar de melhor filme em 2010. Antes de ''Up - Altas Aventuras'', apenas ''A Bela e a Fera'', em 1992, disputou a categoria principal. É verdade que a ampliação para dez concorrentes ajudou o longa da empresa Pixar, mas esse reconhecimento tem um significado maior. Trata-se da consagração definitiva, por parte da indústria, de um gênero cinematográfico que movimenta cifras incalculáveis.
Para se ter uma ideia, na lista dos cinco títulos mais lucrativos do mundo em 2009, dois são animações. ''A Era do Gelo 3'' e o próprio ''Up'' arrecadaram, respectivamente, US$ 883,7 milhões e US$ 683 milhões.
Esses valores se referem somente à venda de ingressos, pois o lucro obtido com DVDs e licenciamentos não tem como ser mensurado com exatidão. Aliás, esta capacidade de ''desdobramento'' é um dos trunfos comerciais das animações, cujo faturamento jamais se limita às salas de projeção. De brinquedos a roupas - passando por salgadinhos, cosméticos infantis e materiais escolares -, tudo vira mercadoria quando se tem uma grife de sucesso nas mãos.
Por trás do resultado financeiro, está o caráter ''universal'' desse tipo de produção. Desde que os desenhos passaram a trazer uma maior variadade temática e piadas mais sofisticadas, com referências à cultura pop, é comum ver famílias inteiras comprando entradas para ver o lançamento animado da vez.
Diante de tanta demanda, não é de se espantar que os estúdios dos Estados Unidos e da Europa busquem mão-de-obra em regiões periféricas como o Brasil. Há algum tempo o país exporta talentos, com destaque para o carioca Carlos Saldanha. Um dos criadores da franquia ''A Era do Gelo'', ele prepara para 2011 o lançamento de ''Rio'', que narra as aventuras de um papagaio de Minnesota na Cidade Maravilhosa. Com distribuição da Fox, o filme engrossa o marketing brazuca antes da Copa do Mundo e das Olimpíadas.
Há também exemplos de pequenos estúdios locais que participam de projetos estrangeiros. É o caso dos paulistas HGN, parceiro da Disney em ''A Princesa e o Sapo'', e LightStar, que assina mais da metade de ''O Segredo de Kells''. Ambos concorrem ao Oscar 2010 na categoria específica de melhor animação.
Toque brasileiro
Ainda inédito nos cinemas do País, ''O Segredo de Kells'' tem inspiração medieval e conta a história de um menino em busca do ''mais fantástico dos livros''.
Fundado pelo diretor Marcelo de Moura, que já passou pela Disney, o LightStar tem sede na cidade de Santos e contou com uma equipe de mais de 40 profissionais para desenvolver a produção internacional. O animador Tiago Rovida explica o porquê da boa carreira do longa-metragem, que teve 40 dos seus 75 minutos feitos no Brasil. ''Trabalhamos com uma linguagem artística mais pessoal, marcante, com muita riqueza nas texturas e detalhes. Os planos também são diferentes, com menos perspectiva e profundidade'', comenta.
Para ele, a ''invasão'' tupiniquim no mundo da animação se deve à combinação de dois fatores: a diversidade cultural do país e o temperamento expansivo dos brasileiros. ''Acho que isso facilita na criação dos personagens e na expressão dos sentimentos deles. Porque o animador não é só um desenhista, ele é um contador de histórias''.

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