São Paulo, 19 (AE) - Foi no Festival de Gramado que o secretário do Audiovisual, José álvaro Moisés, anunciou o lançamento do programa Mais Cinema do Ministério da Cultura. O protocolo foi assinado na terça, no Rio, pelo próprio Moisés, que representou na solenidade o ministro Francisco Weffort. Trata-se de uma nova linha de crédito, com juros subsidiados, que destina R$ 80 milhões à produção, distribuição e exibição de filmes e outros produtos audiovisuais nos próximos 18 meses. A reação da classe cinematográfica foi imediata, variando da euforia à esperança cautelosa.
Paulo Sérgio Almeida, que é hoje um dos maiores especialistas sobre o mercado de cinema no País, destaca o que lhe parece o aspecto mais importante do novo programa. É o fato de o governo, pela primeira vez, contemplar o segmento da exibição. "Historicamente, os momentos de maior expansão do cinema brasileiro foram aqueles, nos anos 70, em que o Brasil dispunha de pelo menos 3 mil salas exibidoras", assinala. Hoje, elas estão reduzidas a menos do que à metade: são 1.360 salas no País. "É urgentemente necessário ampliar o número dessas salas e o governo sabe disso", diz.
Juros altos - Mesmo destacando o que há de positivo no protocolo, seu entusiasmo não é irrestrito. "Falei com algumas pessoas e elas consideram que os juros, mesmo subsidiados, ainda estão altos: 12% ao ano." Só para efeito de comparação, ele diz que os estrangeiros que estão investindo no mercado exibidor por meio dos multiplex trabalham com juros de 3%. "É uma diferença e tanto", destaca.
No ato de assinatura do protocolo, o secretário Moisés enfatizou o fato de, além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o Banco do Brasil e o Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) serem parceiros do ministério no protocolo. "A partir de agora, o cinema passa a ser tratado como uma indusítria, que de fato é, com fundo de financiamento próprio no BNDES e tratamento mais flexível por parte dos programas de exportação do Banco do Brasil", comemorou. O diretor-executivo da Agência Especial de Financiamento à Produção Industrial (Finame), Armando Marianti, que assinou o protocolo por parte do BNDES, acrescentou que o banco sempre se preocupou com a atividade cinematográfica e a possibilidade de geração de empregos que ela representa. Prometeu investir "quanto for preciso".
Para o produtor de "Chatô, o Rei do Brasil", Júlio Uchoa, o protocolo é motivo de júbilo porque o cinema finalmente é tratado pelas instituições econômicas como uma indústria, sem paternalismo. Para a vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica, a produtora Marisa Leão (de "Guerra dos Canudos" e do inédito "Mauá, o Imperador e o Rei"), trata-se de um avanço, mas o protocolo precisa ser complementado por outras ações.
Marisa sempre defendeu o incentivo à distribuição e à exibição, para ela tão importantes quanto a própria produção. "A primeira coisa que um exibidor ou distribuidor pergunta quando lhe oferecemos um filme é que mídia essa produção terá", comentou. O protocolo prevê o item, mas não determina a porcentagem destinada a cada etapa da atividade cinematográfica. Como o projeto é inovador, não estabelece regras fixas. "Preferimos deixar os fatos determinarem a melhor maneira de agir", disse o secretário Moisés.
Zelito Viana foi o primeiro a inscrever-se para conseguir recursos para terminar sua cinebiografia de Villa-Lobos. O filme já está em fase de finalização e ele vai buscar meios de bancar a distribuição e o lançamento. "Atualmente, esse item custa entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão, entre cópias e publicidade, e até ontem (segunda-feira) não estava previsto nas leis de incentivo", explica.
O produtor Bruno Stroppiana, de "O Xangô de Baker Street" e "Estorvo", que serão lançados no ano que vem, acha o protocolo interessante "porque dá ao produtor um empréstimo a juros menores do que os do mercado para prosseguir o filme enquanto a captação não chega." Ele considera altamente positiva a inclusão da distribuição e da exibição no protocolo. "Meu último filme, "Tieta", foi lançado pela Columbia porque não havia outra empresa interessada", diz. Luiz Carlos Barreto lembra que a única distribuidora brasileira de maior vulto, a Riofilmes, faz um bom trabalho, mas não dá conta de toda a distribuição. Por conta disso, "Bossa Nova", de Bruno Barreto, que ele também lança no ano que vem, já tem distribuidora estrangeira contratada.
Em São Paulo, o diretor (de "Ed Mort") e produtor (do inédito O "Castelo Rá-Tim-Bum") Alain Fresnot destacou o caráter emergecial da lei. "Ela vem somar-se a outros instrumentos, num reconhecimento de que os mecanismos de captação estão difíceis, para não dizer parados", disse. Ele considera o protocolo um segundo guichê para atender à demanda de recursos e, como tal, bem-vindo. Também lhe parece positivo que o governo esteja disposto a dialogar com (e sobre) o tripé produção-distribuição-exibição, fundamental para a criação e desenvolvimento de uma indústria cinematográfica. Mas é realista: "Ainda não conheço a sutileza da lei; estou esperando o edital (que deveria ter saído hoje) para avaliar melhor."
Sua atitude de cautela se explica porque, como todo dinheiro que é tomado emprestado, o do protocolo deve exigir garantias reais. "No setor de exibição, não há problema, porque as salas e equipamentos tornam-se automaticamente garantias." Mas, para a produção e distribuição, ele teme que as garantias, recaiam sobre pessoas físicas e não jurídicas, produzindo um grande volume de inadimplência. "Todo cuidado é pouco", resume.

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