PROGRAMA INUSITADO - Som rolando solto
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quarta-feira, 05 de outubro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Era para ser um show da turma ''do lado de fora''. Mas foi a turma ''do lado de dentro'' que protagonizou o momento mais surpreendente da sessão musical promovida na tarde de anteontem na Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), numa iniciativa do DJ/VJ Paulão Rock'n'Roll com apoio da Secretaria Municipal de Cultura.
''Essa música se chama 'Ave Maria' e foi feita quando estávamos no castigo'' anunciou Jeferson André, o ''DJ'', antes de começar a cantar o rap ao lado de Edson Alves de Souza, o ''Edsinho''. O dois criaram as rimas durante uma passagem pela solitária. ''Nossa dupla se chama F.D.C, Família de Consciência, e já temos 12 composições prontas'' revelou Edsinho para o repórter, após a canja em que mandaram três raps ao microfone.
A apresentação imprevista dos detentos encerrou a programação musical, que quebrou a rotina de cerca de 100 presos de quatros galerias do presídio, localizado na zona sul da cidade. Os shows ocorreram no coletivo (espaço de lazer) de um dos pátios do Complexo. Por motivo de segurança, uma grade separou a platéia das bandas convidadas e de toda a equipe que acompanhou o evento ao lado de agentes penitenciários e de profissionais da área de ressocialização dos presos.
''O ambiente aqui é tenso, carregado. Eu estava um pouco nervosa no início, mas depois fui relaxando. Foi muito forte. Acho que eles conseguiram se distrair e ver outras coisas por algumas horas'' afirmou Fernanda Hatti, vocalista da banda Bubble Gum, minutos depois de sua apresentação. Bubble Gum abriu o show tocando seis músicas incluindo uma inédita e uma cover dos Beatles. Foi bastante aplaudida.
''Uns carinhas queriam autógrafos da Fernanda, mas a gente estava proibido de passar qualquer coisa para o lado de lá'' observou o guitarrista Júnior Tofano. A segunda banda escalada foi o trio Os Substitutes (ex-The Cherry Bomb), que tocou músicas de seu recém-lançado EP e versões de Bob Dylan e Ramones. ''Geralmente, quando acaba um show as pessoas vão embora. Aqui, foi como tocar na casa de alguém que não pode sair para a rua. Foi um show único, uma experiência completamente diferente'' assinalou o vocalista e baixista Rodrigo Amadeo.
O trio Zazou Bluz fechou a programação com um show acústico repleto de blues. Foi, talvez, o que mais empolgou a platéia fazendo com que alguns entoassem em coro os refrões de algumas canções, entre elas ''Simca Chambord'', sucesso dos anos 80 da banda Camisa de Vênus. ''As três bandas foram muito legais, mas esta última foi sensacional porque foi buscar as raízes do rock'' afirmou o detento Sinivaldo Domingos Neves Fernandes, 29 anos.
Durante os shows, a maioria dos anfitriões ficou colada à grade enquanto que alguns assistiam de cima de duas traves de futebol de salão. Outros, aparentemente alheios às visitas ruidosas, faziam caminhadas indo e voltando de uma ponta a outra do pátio. Quando todos pareciam se dispersar, os dois rappers da casa reanimaram o ambiente ao cantarem acompanhados pelo beat box (vocalises ofegantes que imitam batidas) de Daniel Casarin, baterista do Bubble Gum.
''Fiquei chapado'' revelou Paulão Rock'n'Roll ao final do evento. ''Não esperava tudo isso. A nossa turma tocou o que a gente conhece, mas o que eles mostraram foi demais. Eles cantaram com raça, com ódio, com muito ódio. E eles só querem o que nós também queremos: atenção, alguém que dê espaço para eles mostrarem o trabalho, algum patrocinador''.
O evento acabou por volta de 16h15, cumprindo mais uma edição do projeto ''Papo de Rock II'', comandado por Paulão com amparo do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) e que consiste na realização de shows gratuitos pela cidade e palestras para alunos de escolas públicas.


