São Paulo, 21 (AE) - A Terra já tem 6 bilhões de habitantes e a maior geração de jovens de todos os tempos: mais de 1 bilhão de pessoas entre 15 e 24 anos. Imagine o que isso significa num mundo pautado pela competição e hipocrisia, num período de devastação em que a aids obriga adolescentes a ver no sexo não uma celebração vital, mas um veículo para a morte certa.
Agora, olhe para seu filho e tente entender que a crise da juventude contemporânea não é culpa dos adolescentes, mas de uma sociedade incapaz de compreender o que esses jovens estão tentando exprimir por intermédio de sua revolta. Isso explica o sucesso do programa "MTV Erótica", comandado por Babi (a modelo Anna Bárbara Xavier) com a ajuda do psiquiatra Jairo Bouer.
A crise desses adolescentes reflete o mal-estar da sociedade por preparar o jovem para a arena do desemprego e da frustração sexual. Por todos os lados a publicidade vende a promessa do prazer sexual, interdito pelos pais. Por todos os ouvidos entra o discurso de que o mundo é dividido entre vencedores e perdedores. O adolescente não deseja mais descobrir o mundo. Ao contrário, ele quer esconder-se dele com medo da concorrência e do fracasso nessa sociedade hedonista e materialista. Numa idade em que a pulsão sexual responde pela maioria dos atos humanos, esse adolescente parece mais perdido e desamparado do que nunca, o que explica também o alto índice de aprovação do programa de Babi.
Amor e sexo - Os adolescentes encontraram, enfim, o interlocutor ideal. Babi não julga, apenas aconselha. Não faz discursos moralizantes, não é irresponsável e jamais dispensa a assessoria científica de Bouer. Esclarece sem inibir, tentando quase sempre fazer a ponte entre pais e filhos. Deixa claro que também a geração mais velha vive no mesmo mundo incoerente dos jovens e por isso merece ser ouvida. É da soma de opiniões que o jovem forma a própria idéia da sexualidade, para ele sinônimo de liberdade. O adolescente precisa saber tudo sobre ela antes de adotar a práxis, hoje caracterizada pela precariedade extrema, por uma idéia difusa de sexo dissociada da palavra amor.
O novo corpo, não se deve esquecer, expressa também a cultura da sociedade de consumo e a repressão da ideologia uniformizadora desse mundo globalizado que quer tratar todos como um único e indivisível ser, alheio às diferenças regionais. Babi parece atenta a esse perigo. Lembra sempre que o que é bom para um pode não ser para outro. Esse respeito à diversidade ficou transparente no programa dedicado ao campeão de vôlei Lilico, que assumiu sua homossexualidade e acabou sofrendo represálias dos cartolas.
Poder - Numa conversa franca com Babi e Bouer, Lilico contou como sua escalada social foi barrada pelos detentores do poder, mas não o fez com ressentimento. Relatou sua experiência como alguém que se sente responsável por mudanças numa estrutura perversa, disposta a esmagar o diferente. Ninguém administra essa diferença com facilidade numa sociedade machista como a brasileira. Nesse sentido, é possível notar que as perguntas aparentemente simples dos espectadores adolescentes encerram uma crise mais séria, da própria sociedade em que vivem. O "MTV Erótica" instaura não só um novo fórum de debates. Prepara o jovem para rejeitar a hipocrisia. Não é pouco num país de predadores cínicos e mentirosos.
Claro que o "MTV Erótica" foi concebido no contexto da expansão burguesa. Como portador de valores morais de uma categoria social historicamente dominante, o programa reflete as contradições da sociedade paleocapitalista, com um pé na alta tecnologia e outro no mundo agrário. Avança e recua com a mesma facilidade no campo moral, mas essa elasticidade não é perversa. É apenas a manifestação de uma dúvida, sempre necessária quando o assunto é sexo.

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