Progamas de TV tiram dúvidas sobre sexo
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quinta-feira, 20 de maio de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 21 (AE) - Há menos de cinco meses no ar, o "MTV Erótica", apresentado pela modelo e atriz Anna Bárbara Xavier, a Babi, toda quarta-feira, às 22 horas, já é a maior audiência do horário nobre da emissora musical. Com a ajuda do médico psiquiatra Jairo Bouer, Babi tira as dúvidas sobre sexo que adolescentes e marmanjos apresentam pelo telefone ou pela Internet. Tudo ao vivo.
Pesquisa feita esta semana pela CPM Market Research com 240 jovens de 15 a 24 anos das classes A e B da cidade de São Paulo aponta que a razão do sucesso do MTV Erótica vai além do sorriso cativante da apresentadora. O resultado da pesquisa traz dados novos e outros nem tanto.
Não é novidade, por exemplo, que quando o jovem tem uma dúvida sobre sexo ele vai aconselhar-se com o amigo que sabe tanto ou menos do que ele. Essa foi a resposta de 90% dos entrevistados. Em segundo lugar na busca de informações sobre sexo estão os artigos em revistas (76%). A surpresa surge em seguida: os programas de TV aparecem em terceiro lugar (63%) como fonte informação sobre o tema, à frente da conversa com os pais (50%).
O resultado é mais intrigante se considerarmos as respostas à questão seguinte, sobre o meio ideal para se informar sobre sexo. A conversa com os pais aparece em primeiro lugar (34%), conversas com amigos em seguida (20%) e depois livros especializados (11%), artigos em revistas e programas de TV (10%), conversas com adultos (6%), orientação escolar (5%), conversa com irmão (2%), programas de rádio (1%) e conversa na igreja (1%).
àrfãos - "A educação do adolescente foi entregue à mídia e ao consumo", diz a escritora e jornalista Regina Castro
que coordena o Projeto Sol e Lua, no Rio de Janeiro. Há três anos, o Sol e Lua faz palestras e dramatizações com o objetivo de esclarecer os adolescentes sobre a sexualidade. "Ao mesmo tempo que é eficaz em informar, a TV tem a responsabilidade subjetiva de formar o adolescente", diz.
Nesse aspecto, Regina aponta o que chama de uma posição "esquizofrênica" da TV. "Uma hora a TV mostra um locutor sério falando da preocupação social que é o aumento dos casos de gravidez na adolescência e, em seguida, entra uma novela que supervaloriza a sexualidade, ressalta a posse, o ciúme e a traição e descarta o afeto."
Regina informa que, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em alguns países do Terceiro Mundo, como o Brasil, o número de adolescentes grávidas chega a 1 milhão por ano. Os dados consideram adolescentes entre 11 e 19 anos. De acordo com a pesquisa do CPM Market & Research, a TV é fonte de informação sobre sexo para os mais jovens: 70% entre 15 e 19 anos e 57% na faixa dos 20 aos 24 anos.
A pesquisa procurou identificar o conhecimento dos jovens sobre os programas destinados a eles. O mais conhecido é o "Programa Livre" apresentado por Serginho Groisman, no SBT, citado por 97% dos entrevistados. Em segundo lugar aparece o programa "H", apresentado por Luciano Huck, na Bandeirantes, com 90%. O "MTV Erótica" foi lembrado por 68% dos entrevistados e o "Turma da Cultura", por 53%. Todos os programas são diários em TV aberta, com exceção do "MTV Erótica", exibido uma vez por semana com reapresentações aos sábados e domingos e é sintonizado pelo canal 32 UHF em São Paulo e por cabo e DTH (digital).
Dentre os entrevistados que assistem aos programas para adolescentes, a maioria prefere o "MTV Erótica" (44%), em seguida o "Programa Livre" (32%), programa "H", (21%) e "Turma da Cultura" (18%). Para a sexóloga Marta Suplicy, a TV precisa lançar uma campanha em massa bem diferente de tudo o que exibe atualmente. "É preciso mostrar vinhetas com o adolescente recusando o sexo quando não desejar e dizendo sim com responsabilidade", diz. Para a sexóloga, não existe modelo na TV para o adolescente aprender a dizer não mesmo diante das frases desafiadoras dos colegas. "Não se trata de um modelo moralista", ressalta a sexóloga. Para ela, o "MTV Erótica" vai na linha do "tudo bem
tudo pode".
Na opinião de Marta Suplicy, as dúvidas dos adolescentes sobre sexo são as mesmas que há uma década. A diferença é que a pergunta que era feita por um rapaz de 15 anos hoje é feita por uma criança de 10 anos. O motivo: "Porque ela é submetida a um excesso de informações muitas vezes sem estrutura para decodificar", diz. "Isso provoca uma confusão na cabeça desses adolescentes."
Sem camisinha - O psiquiatra Jairo Bouer concorda que o adolescente de hoje recebe uma avalanche de informações, seja por meio da TV, das revistas ou Internet. "Tenho quase certeza de que esse conhecimento não se traduz num comportamento sexual seguro", diz. "O índice de adesão ao uso da camisinha é de 20%", continua Bouer. É um índice muito baixo."
Falar com o adolescente de igual para igual pode parecer simples, mas é de uma complexidade que deixa a escola e a igreja a anos-luz de distância dos adolescentes quando o assunto é sexo. Para os jovens ouvidos pela pesquisa a escola aparece em oitavo lugar (25%) dentre as formas usadas por eles para se informar sobre o tema. A igreja aparece em último lugar (55).
Para o psiquiatra, o "MTV Erótica" agrada, entre outras coisas, por falar direto com o jovem, sem rodeios e com a maior simplicidade possível. "Procuramos responder do mesmo jeito que a pessoa perguntou", diz.
No último tópico da pesquisa, os entrevistados foram convidados a dar notas de 0 a 10 aos programas para adolescentes. O "MTV Erótica" foi considerado o mais informativo (7,5), seguido do "Turma da Cultura" (7,3), "Programa Livre" (6,7) e "H" (4,5). O programa apresentado por Babi também foi considerado o mais agradável de assistir (7 2), seguido por "Programa Livre" (6,8), "Turma da Cultura" (6,5) e "H" (6,3).
O "MTV Erótica" também recebeu a nota mais alta quando se perguntou qual programa prende mais a atenção (7,4), à frente do "H" (7,0), "Programa Livre" (6,5) e "Turma da Cultura" (6,2). Sobre a atração que achavam mais importante para os jovens, os entrevistados responderam Turma da Cultura (7,3), MTV Erótica (7,2), Programa Livre (6,9) e H (4,5). É como dizer que a Feiticeira é boa de ver, mas não ensina muita coisa.


