Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
Com precisão de virtuoses, artesãos da Casa Violino & Famiglia, de Curitiba, constroem bons violinos. Ateliê é o único no Brasil especializado também na confecção de violoncelos, viola e contrabaixo
Os primeiros violinos foram construídos por volta de 1540. Durante 150 anos a técnica evoluiu muito, mas depois disso os violinos são praticamente os mesmos. Em Curitiba, a Casa Violino & Famiglia é a única no Brasil com a formação de artesãos construtores, restauradores e especialistas em envelhecimento de instrumentos de cordas friccionadas.
Os luthiers ᖠartesãos que constroem violinos, violas, violoncelos, e contrabaixos – e os archetiers – especialistas na confecção de arcos para esses instrumentos – fazem um trabalho rico em detalhes minuciosos, que resultam nos instrumentos musicais, tanto para iniciantes quanto para profissionais.
O atelier que abriga os profissionais tem uma arquitetura e construção tão sensíveis quanto a própria profissão. Idealizado pelo luthier Luiz Amorim, o prédio segue os princípios da arquitetura barroca. Primeiro foi feita a estrutura de madeira, depois o telhado e por fim, os vãos foram preenchidos com alvenaria e vidro.
É nesse ambiente, ao som das sonatas de Bach, que Helcio e Igor Fomin (pai e filho), Célio Procópio e Luiz Amorim passam os dias construindo, reformando, envelhecendo, estudando e pesquisando a família do violino.
Para contar como se faz um instrumento musical, eles começam pela origem da palavra luthier. Vem de luthe, que em árabe significa alaúde. Em francês, os luthiers são os que constroem e restauram alaúdes. O primeiro luthier que se tem notícia foi o italiano Andrea Amati (1510 - 1580), que viveu em Cremona, berço dos violinos. Depois dele vieram Nicola Amati e Antônio Stradivari, que formaram gerações de discípulos.
Construir um violino, hoje, começa com uma forma interna. Sobre ela são colocadas dezenas de lâminas de madeira, curvadas num molde de ferro. A madeira para essa parte é o acero, que só é encontrada na Europa. O tampo e o fundo são feitos de abeto, uma conífera também européia. ‘‘Essas madeira são especiais pela beleza estética com efeitos de ondas, como um capricho da natureza. Para ser utilizada, a madeira precisa envelhecer naturalmente pelo menos cinco anos’’, conta Helcio Fomin.
Até a forma de cortar a árvore do acero é especial. Como uma pizza ou em gomos, a madeira é exportada já em forma de cunha. Esculpida por dentro, por fora e colada, toma a forma da caixa do violino. O acabamento é feito com filetes de três lâminas de madeira, incrustados ao redor do instrumento. ‘‘Nessa etapa há uma curiosidade. Alguns afirmam categoricamente que os filetes têm função acústica. Outros, juram que é apenas estético. Mas é exatamente isso o que mais fascina na nossa profissão. A falta de definição, o mistério’’, admite Luiz Amorim.
Miniplainas e goivas – ainda as mesmas usadas pelos primeiros luthiers – esculpem o abaulamento por dentro e por fora. É nesse ponto que entra outra técnica fundamental: a calibragem das espessuras nos diferentes pontos do violinos. ‘‘A qualidade do instrumento é medida pela precisão das espessuras. É nessa hora que faz a diferença entre um violino feito numa fábrica, numa oficina ou de autor’’, esclarece Helcio.
Se a caixa fica muito fina, o violino fica estridente ou ‘‘gritão’’, se a espessura é maior, o violino tem um som surdo, mais fechado. O braço também é todo esculpido. Por cima dele é colado um espelho de ébano. Madeira preta, muito resistente ao atrito, própria para o local onde os músicos digitam. Também nas cravelhas, estandartes, botões e pestanas é usado o ébano.
No final, é passado um verniz feito pelo próprio luthier, com resinas naturais e diluentes. ‘‘Alguns artesãos têm próprias fórmulas guardadas a sete chaves. Mas hoje já é possível fazer a composição química mais facilmente’’, reconhece Fomin. Ele compara a profissão de luthier com a de alfaiate. ‘‘O produto final depende da importância do evento, do músico, do local, da finalidade do concerto e também do tecido usado e do porte da pessoa.’’
Já o Archetier são os profissionais que fabricam os arcos. Tão ou mais importantes do que os próprios instrumentos, os arcos são uma especialidade a parte. No mundo inteiro são feitos de pau-brasil, desde 1780. A haste sustenta um feixe de crina de cavalo. Para os detalhes são usados ébano, marfim, prata e ouro. As habilidades de archetier estão sendo passadas de pai para filho. Igor Fomin, de 17 anos, pretende torna-se um mestre nessa arte. ‘‘É no arco que o músico deposita toda a sua sensibilidade. A escolha dos arcos é muito pessoal’’, afirma Igor.
Os artesãos fazem, também, instrumentos barrocos, manutenções, ajustes acústicos, avaliações e consultoria. As vendas são feitas em todo o País. ‘‘Tivemos de nos adequar para prestar todo o tipo de serviço pela carência de profissionais. Queremos oferecer um profissiolismo como os que existem na Europa, onde há ruas inteiras só de luthiers.

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