Profissionalismo é fundamental
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de setembro de 1998
Érika Pelegrino 
Mário CesarReynaldo Boury: Queremos jovens que tragam novas idéiasA tendência da televisão hoje é a regionalização. Quem afirma é o diretor da Rede Globo, Reynaldo Boury. Ele está em Londrina, junto com a roteirista Margareth Boury e o professor de interpretação Antônio Amâncio, para a realização das oficinas de interpretação e roteiro. A equipe está viajando pelo Brasil há dois anos ministrando os cursos.
Já estiveram em Goiânia, Curitiba e Salvador, onde realizaram três oficinas. Salvador é um pólo fecundo de talentos, afirma Reynaldo Boury. De Londrina a equipe volta a Curitiba e em seguida segue para Brasília e Fortaleza. Esta peregrinação pelo Brasil visa descobrir os talentos regionais. A televisão brasileira, segundo Reynaldo Boury, está regionalizando sua programação.
Só se fazem novelas com sotaque carioca ou paulista. É preciso descobrir o talento regional, afirma. Segundo ele, existe uma lei, ainda em fase de elaboração, que irá tornar obrigatória a produção de programas regionais. Pelo menos 30% da grade terá que ser regional, entre programas esportivos, jornalísticos, novelas, afirma.
A Rede Globo, por exemplo, de acordo com o diretor, está planejando, para o próximo ano, a regionalização não apenas através de atores, mas a criação de programas de teledramaturgia inclusive com equipe técnica local. Nestas oficinas que o diretor e sua equipe estão realizando pelo Brasil, os interessados terão uma noção geral tanto de interpretação, quanto de roteiro de uma novela.
Segundo o diretor, quando se escreve uma novela o autor principal deve contar com pelo menos quatro assistentes. São estes auxiliares que estamos procurando. Queremos jovens que tragam novas idéias, novos talentos, afirma. Reynaldo Boury afirma que a Globo tem autores consagrados mas que precisam ter contato com a realidade dos jovens para se reciclar.
Ele lembra do caso de um autor da Globo, que ele prefere não citar o nome, que escrevia termos da sua época de jovem. Eram termos antiquados, que tínhamos que adaptar, lembra. A figura dos auxiliares de roteiro surgiu há uns quatro anos, segundo o diretor. Antes o autor escrevia sozinho uma novela, diz. Quando ele ficava doente, por exemplo, o capítulo não era entregue.
Reynaldo Boury cita o caso do autor Walter Negrão, que teve dois infartos durante uma novela. Na oficina de interpretação os interessados irão ter idéia sobre como se comportar em cena, tom de voz, postura, expressão. Apesar de estar em busca de talentos regionais, Reynaldo Boury explica que estas oficinas não são vinculadas à Globo. Não vamos obrigatoriamente levar as pessoas para a Globo, alerta. É claro que se alguém se destacar iremos levar o roteiro desta pessoa - ou uma fita de vídeo, no caso de interpretação - para a emissora, diz.
Em Salvador um participante da oficina de roteiro foi apresentado para a Globo. Cláudio Simões destacou-se com um trabalho e hoje está na oficina de roteiro da emissora. Com certeza ele será contratado, afirma o diretor. Para os jovens interessados em se tornarem atores globais, Reynaldo Boury, alerta que o fundamental é o profissionalismo.
Segundo ele, esta história de que nas oficinas de interpretação da Globo só entra quem for bonito é puro folclore. É claro que a beleza é importante, mas sem talento nada feito, garante. Existem grandes atrizes que não são bonitas, exemplifica. Beleza e talento são importantes, mas o fundamental, segundo o diretor é o profissionalismo.
Sempre sem citar nomes, para não ferir suscetibilidades, Reynaldo Boury destaca o exemplo de uma atriz global que é bonita, tem talento, mas falta profissionalismo. Trabalhar com ela é o mesmo que ficar na sala de espera de um hospício, diz. Por profissionalismo entenda-se: ser pontual, chegar no set de gravação com o texto decorado, com a roupa certa.
Os atores da velha guarda são os preferidos de Reynaldo Boury. A Fernanda Montenegro, por exemplo, é um exemplo de profissionalismo, diz. Os atores jovens, segundo ele, são mais difíceis de se trabalhar. Para a maioria desta meninada chegou só o sucesso. O talento ainda não chegou, diz.
Ele afirma que os atores mais jovens, pelo menos a maioria deles, são dispersivos. Eles passam a noite em farras, depois não conseguem cumprir os compromissos, diz. Falta também perseverança profissional. Ele cita outro exemplo, sem falar em nomes é claro. Um ator jovem, galã, fez uma novela e explodiu e foi chamado para fazer outra. Um dia este ator estava em Curitiba e no dia seguinte teria que ir gravar no Rio de Janeiro.
Depois de passar a noite na gandaia ele embarcou no avião às 6 horas e dormiu. Só acordou quando o vôo estava chegando em Ilhéus e a comissária de bordo o chamou para servir o almoço. Ele ainda armou um escândalo em Ilhéus dizendo que ia processar a empresa aérea, conta Reynaldo Boury. Resultado, a gravação no Rio de Janeiro foi suspensa. Isto traz um prejuízo moral e econômico. Imagine quanto não se investe em uma gravação. Hoje este ator não faz quase nada, diz.
Oficina de Interpretação de 15 a 26 de setembro e de roteiro de 14 a 19 de setembro. Inscrições na praça de alimentação do Shopping Catuaí. Preço: roteiro R$ 250,00 e interpretação R$ 300,00.


