As aparições de Capitu têm levantado a audiência da novela das oito da Globo. Uma pesquisa de avaliação realizada no final de julho em São Paulo, entre mulheres de todas as idades, apontou a personagem interpretada por Giovanna Antonelli como a mais querida de ‘‘Laços de Família’’.
Só a liga das senhoras católicas de Santana torceu o nariz, protestando contra o fato da emissora mostrar uma prostituta boazinha na trama. ‘‘Ela é uma moça que precisa trabalhar para sustentar o filho, pagar a faculdade e ajudar nas despesas da casa. Eu acho que o papel dela é bem real’’ – diz Bianca (nome fictício), 19 anos, uma garota de programa de Londrina.
Bianca mora com a mãe e uma irmã de 1 ano e dois meses. Loira de olhos verdes, ficou noiva quase dois anos. A relação acabou há poucos meses, motivada por ciúmes do namorado. Entrou no ‘‘esquema’’, como chama o sexo pago, quando tinha quinze anos. Na época, a família passava necessidades. Os pais estavam separados e desempregados.
Por ser bonita e sexy, conseguiu um bico como dançarina numa casa noturna. Ali, recebia cantadas com frequência, algumas acompanhadas de propostas em dinheiro. Foi o começo de tudo. Durante muito tempo escondeu de familiares, vizinhos e amigos o que fazia todos os dias com diferentes homens dentro de motéis.
‘‘Minha mãe achava que a grana vinha da dança’’ – conta. ‘‘Enganei ela um tempão. Hoje ela já sabe, mas sempre que saio diz para eu tomar cuidado’’. Uma vez, um cliente recusou-se a pagá-la. ‘‘Ficamos três horas discutindo no quarto do motel’’ – lembra ela. ‘‘Logo que ele saiu, fui atrás com um moto-táxi. No caminho, ele parou num bar e aproveitei para anotar a placa do carro e ligar para um amigo. Seguimos o cara até a casa dele. Depois de conseguir o número do celular, liguei no dia seguinte para ameaçá-lo. Ele entrou em desespero com medo que eu falasse com alguém de sua família. Mas eu fiquei com dó, lembrei que meus pais se separaram por causa de uma confusão parecida. Deixei pra lá. Nem peguei o dinheiro’’.
Entre as fantasias masculinas que teve de enfrentar na cama, Bianca lembra de um adepto de práticas sadomasoquistas que lhe pediu para surrá-lo com a fivela do cinto. ‘‘Ele ficou pelado se masturbando’’ – conta. Para renovar a clientela, a menina recorre a uma cafetina e a um taxista. Mas diz que está sempre cercada de empresários: ‘‘Tem uma casa de jogos aí na cidade onde é fácil arrumar esquemas’’.
Diz que sempre pede R$ 100,00 ou R$ 150,00 por programa. Confessa que já se acostumou a vender o corpo. ‘‘Acho que não conseguiria trabalhar por mês recebendo isso, ou até menos que isso. Mas para ficar nessa vida, tem que ter juízo, tem que saber guardar o dinheiro. Tem muitas meninas que gastam com roupas. Eu dou uma parte para minha mãe, e outra parte coloco no banco para um dia talvez fazer um curso ou montar uma coisa pra mim’’.
Amanda (nome fictício), por sua vez, ainda se angustia com o que faz entre quatro paredes com sujeitos que nunca viu antes. Topou falar à Folha, mas achou ‘‘um horror’’ ser objeto de reportagem de jornal na condição de garota de programa. Tem 18 anos. Cursa o terceiro ano de 2º Grau. Mora com a mãe, um padrasto (que odeia) e dois irmãos menores.
Trabalhou como secretária durante dois anos e meio. Há quatro meses procura emprego. E desde fevereiro está sem namorado. Entrou no mundo da prostituição há três semanas. ‘‘Comecei porque não queria mais depender de ninguém. Cansei de pedir dinheiro para minha mãe e brigar com meu padrasto, que sempre se mete no meio da gente’’ – explica.
O incentivo partiu de uma amiga, que está há mais tempo no esquema. Através da amiga, entrou na agenda de uma cafetina. ‘‘Ela me arruma um programa por dia. Em geral, ela fica com R$ 30,00 e eu com R$ 70,00. Às vezes, aparecem clientes que pagam mais’’ – revela. Por estudar à noite, só ‘‘sai’’ no começo da tarde. A cafetina vai buscá-la em casa sob a fachada de trabalhar com venda de confecções.
Até o número de seu celular foi deixado com a mãe da garota para não gerar desconfiança. ‘‘Se um dia minha mãe souber o que faço, vai chorar muito, vai querer matar a Sirlene (nome fictício da agenciadora) e vai ficar um bom tempo sem falar comigo’’ – teme a menina. Talvez por estar se iniciando na prostituição, ela tem rejeitado alguns programas.
‘‘Um cliente’’ – lembra – ‘‘ me pediu para falar coisas obscenas, e eu fui embora. Outros dois, enormes e gordos, começaram a passar a mão no meu corpo e eu não gostei. Um outro queria fazer um programa comigo e com minha amiga, mas eu recusei por achar nojento’’. Amanda diz que não pretende encarar as atividades de garota de programa por muito tempo. ‘‘Quero voltar a trabalhar, namorar e continuar estudando’’ – afirma.
Além dela e de Bianca, a Folha tentou entrevistar meninas que fariam parte de catálogos em agências de acompanhantes, a exemplo de Capitu da novela. Uma das agências, entretanto, jogou água fria na investida da reportagem alegando que nenhuma delas se prestaria a falar de graça. Ao ser contactada por telefone, um dos sócio-proprietários argumentou: ‘‘Nos vinte ou trinta minutos que a garota gastaria com você, ela vai estar perdendo 200 reais’’.

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