Professora estuda o movimento integralista
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quinta-feira, 26 de agosto de 1999
Por Renata Saraiva 
São Paulo, 27 (AE) - Num curtíssimo período de tempo, de 1932 a 37, a Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, tornou-se o primeiro partido de massa do País. Chegou a ter mais de 1 milhão de inscritos quando, com todos os outros partidos políticos, foi extinto pelo golpe do Estado Novo.
Os rituais integralistas, compostos de marchas, uniformes e a saudação de mão acompanhada da palavra "anauê", que significa "você é meu amigo" em tupi, foram cosiderados a versão brasileira dos utilizados pelos partidos de massa europeus, principalmente o de Mussolini. Os integralistas sempre negaram relação com aquele líder, embora o Ministério das Relações da Itália tenha promissórias de remessa de dinheiro do governo italiano ao Brasil assinadas por Plínio Salgado, recentemente descobertas pelo historiador brasileiro João Fábio Bertonha.
Os mecanismos que possibilitaram a rápida e eficiente arregimentação de pessoas em torno do integralismo são o objeto de estudo da professora de história da Unesp Rosa Maria Feiteiro Cavalari, que acaba de lançar o livro "Integralismo - Ideologia e Organização de um Partido de Massa no Brasil" (1932-1937) (Edusc, R$ 22,00). "O que me inquietava era a força do integralismo: eu queria entender como um movimento que tinha um discurso aparentemente frágil, sem consistência teórica, conseguiu fazer tantos associados", diz Rosa Maria.
Sua pesquisa foi feita a partir do Arquivo Municipal de Rio Claro, no interior de São Paulo, onde estão a correspondência ativa e passiva de Plínio Salgado entre 1927 e 76. Lá estão também jornais, artigos e documentos do Partido de Representação Popular (PRP), criado por ele na volta do exílio em Portugal, após a Intentona Integralista; e a biblioteca de seu secretário pessoal, Rui Arruda.
O livro de Rosa Maria é uma análise do que ela chama de "rede" constituída pelos símbolos e ritos do integralismo, pelas sessões doutrinárias e pela imprensa integralista. "Atribuo o rápido crescimento do movimento à mistura dessas coisas; existe uma extensa bibliografia do integralismo, cujas idéias eram popularizadas pelos jornais e pelas rádios distribuídos pelo País; tudo reforçado pelar reuniões semanais"
explica a autora.
Segundo o integralista Gumercindo Rocha Dória, dono da editora GRD, que tem publicado livros sobre Plínio Salgado e acaba de lançar o romance inédito do autor, Dono do Mundo, foram escritas mais de 70 obras integralistas por intelectuais famosos como Câmara Cascudo e Miguel Reale.
Rocha Dória ingressou na Ação quando tinha apenas 10 anos, em Ilhéus (BA). Encantado com o uniforme dos camisas-verdes e as marchas pela cidade, fez parte do grupo dos plinianos - as crianças integralistas. Ele não teve nenhuma influência dos pais, ao contrário de outros jovens, que já nasceram no berço da doutrina. "Existia o batismo integralista, de maneira que o movimento fazia parte da vida das famílias", observa Rosa Maria. Algumas crianças receberam nomes derivados da palavra sigma, como Iara do Sigma ou Sigmar. O termo, que em grego siginifica "soma", era o símbolo impresso nas camisas e bandeiras integralistas. Casamentos e enterros com rituais próprios eram outras práticas.
Os estudos feitos sobre o integralismo mostram algumas controvérsias quanto à natureza da comparação com o fascismo. Para o pioneiro dessas pesquisas, Hélgio Trindade, cuja tese é resumida no livro de Rosa Maria, não é possível afirmar que o integralismo tenha sido apenas fruto de um mimetismo ideológico, mas a forma altamente hierarquizada, o estilo carismático e autocrático do chefe e os rituais não se podem explicar sem o modelo fascista.
Para José Chasin, também citado por Rosa Maria, o fascismo é uma ideologia de mobilização nacional para a guerra imperialista, típica de um país de capitalismo tardio como a Itália. Já o integralismo teria sido uma ideologia reacionária e utópica, um fenômeno do capitalismo imaturo ou hipertardio, com apelo ruralista.
Rocha Dória diz nunca ter havido nenhuma menção ao governo fascista nas reuniões de que participou. "Muito menos aos nazistas; os grupos nazistas que existiam no Paraná nos odiavam porque nós atrapalhávamos a sua atuação", argumenta.
Em um de seus últimos textos, Salgado afirmava que os símbolos do integralismo semelhantes aos do fascismo eram apenas "exterioridades". O líder dos integralistas considerava o movimento uma terceira via, ou seja, uma alternativa entre o liberalismo e o comunismo. "Ele chegou a afirmar que a liberal-democracia era mais perniciosa que o comunismo, porque ele não dizia a que vinha", afirma Rosa Maria.
As blusas-verdes, ou seja, as mulheres integralistas, eram levadas por seus maridos a colaborar filantropicamente no movimento. Ajudavam na alfabetização da massa, o que garantiria mais votos a Plínio Salgado, caso a cassação dos partidos não tivesse evitado sua candidatura à Presidência da República, em 1937.
Como nunca se deve perguntar o que aconteceria se a história fosse diferente, é preciso contentar-se com os indícios deixados pelos documentos, o que é muito bem-feito no livro de Rosa Maria, que traz também rica iconografia do período.


