O desenvolvimento do plantio do café seguia a todo vapor, e Londrina era conhecida como a ‘cidade onde se pisava em ouro’, onde se ‘acendia cigarro com nota de mil cruzeiros’ e se enriquecia da noite para o dia. O local chegou a ser considerado um verdadeiro Eldorado construído por pioneiros que não pouparam suor.
Toda essa concepção de desenvolvimento pairou sobre a cidade nos anos 50 e chamou a atenção do historiador José Miguel Arias Neto, que ouviu comentários sobre a ideologia do progresso conversando com estudiosos da história de Londrina. ‘‘Eu resolvi pesquisar essa idéia e a forma como ela se desenvolveu’’, comenta.
Os resultados foram reunidos em uma tese de mestrado que, com algumas adaptações, se transformou no livro O Eldorado - Representações da Política em Londrina - 1930-1975, que será lançado hoje no Cine-Teatro Ouro Verde, às 18 horas. O lançamento faz parte do evento Seminário Nacional Democracia e Liberdade - Interlocuções com Marilena Chauí, promovido pela Universidade Estadual de Londrina - UEL - e Universidade de São Paulo - USP.
No livro, Miguel Arias Neto tenta destrinchar o Eldorado norte-paranaense, conceito muito utilizado para se referir a Londrina durante o auge da cultura cafeeira. Depois de mergulhar em livros e artigos de jornal - além de realizar 16 entrevistas com pioneiros da região - o pesquisador concluiu que a ideologia do progresso persegue a cidade desde a década de 30.
‘‘Mas a idéia pega mesmo com o desenvolvimento do café, e era comum nos anos 50 em termos globais, com o desenvolvimento financeiro do pós-guerra’’, explica o pesquisador, citando o livro A Era dos Extremos, de Erich Hobsbawn: ‘‘Ele diz que depois da Segunda Guerra os anos 50 foram os anos que mudaram a sociedade, uma espécia de década de ouro. Na minha pesquisa, percebi essa idéia disseminada em artigos de jornais’’.
Ao estudar crônicas e álbuns sobre Londrina, Miguel chegou à conclusão de que a ideologia do progresso fazia parte do pensamento político da elite da cidade. ‘‘Após o Estado Novo, os fazendeiros já se preocupavam em eleger os representantes locais, estaduais e federais para proteger os interesses da ‘terra onde se anda em dinheiro’, do Eldorado’’.
Na década de 50, segundo o pesquisador, também havia um relacionamento diferenciado entre os moradores da cidade, conforme relatos dos entrevistados. ‘‘Havia uma relação muito familiar, muito pessoal, uma idéia da cidade como uma grande família. As pessoas acreditavam nisso, numa imagem da família feliz numa cidade de ouro’’.
Mas, na década de 70, com a crise do café, o cenário mudou. ‘‘A ‘decadência’ que eles relatam com o fim do plantio do café destruiu essa representação, que tinha uma sustentação concreta no desenvolvimento econômico e na riqueza propiciada pelo cultivo’’, ressalta Miguel.
Outro contexto que ajuda a configurar o quadro é o político. ‘‘Na década de 50 o Partido Comunista acreditava que tinha que levar os direitos dos trabalhadores urbanos para os trabalhadores rurais. Em Londrina, alguns membros organizam o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e começam a entrar na Justiça exigindo férias e 13º salário, entre outras reivindicações’’.
O processo teria provocado a reação dos cafeicultores, gerando conflitos na Justiça e fazendo com que alguns trabalhadores abandonassem as fazendas. ‘‘Somado à crise cafeeira de superprodução, você terá o desenvolvimento de conflitos sociais’’.
Outra tese defendida por Miguel Arias Neto é que, com a decadência do café, muita gente passou a acreditar que várias indústrias viriam se instalar na cidade, como ocorreu em São Paulo. ‘‘Muitos pensaram que essa transição seria automática, mas a elite que possuía recursos financeiros manteve um projeto agrário, e por isso a estrutura da cidade permaneceu agrária’’, afirma.
O livro será tema de um debate no dia 1º de abril, às 19h30 na sala de eventos do CCH da UEL. O Eldorado... foi impresso pela Editora UEL e está à venda na Livraria Rosa do Povo (Avenida Higienópolis, 602, loja 8), em Londrina, pelo preço promocional de R$ 12,00. A obra também estará à venda em outras livrarias da cidade.

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