São Paulo, 28 (AE) - Não há como negar nem haveria por que negar: a fonte de inspiração mais próxima de quem quer fazer cinema alternativo no Brasil atende pelo nome de Dogma 95, movimento dos diretores dinamarqueses liderado por Lars Von Trier e Thomas Vinterberg. Os dois já são conhecidos no País por trabalhos como "Festa de Família" e "Os Idiotas". Outros filmes com a chancela do Dogma também foram apresentados por aqui: "Mifune", de Soren Kragh Jacobsen, e "Amantes", do francês Jean-Marc Barr. No entanto, mesmo se inspirando no Dogma dinamarquês, os brasileiros reconhecem que tentativas semelhantes já foram feitas em outros lugares: "O Cinema Novo, a nouvelle vague francesa propunham formas mais ágeis de produção, livrando-se tanto da parafernália técnica como econômica dos estúdios", constata Toni Venturi.
Podem ser influências longínquas. Mas é o Dogma dinamarquês, mesmo, que está na moda. Visto superficialmente, esse movimento parece mais uma estratégia de marketing que um conjunto preciso de recomendações destinadas a tirar o cinema comercial do marasmo. Eles recomendam, por exemplo, locações naturais, à luz do dia, câmera na mão ou no ombro, sons e música que façam parte orgânica da cena e não sejam acrescentados depois. Uma espécie de neonaturalismo, mas despojado.
Os diretores o chamam de "voto de castidade", porque renuncia, voluntariamente, a algumas conquistas técnicas, a alguns "falsos prazeres" modernos, como a steady cam (que permite a filmagem tipo câmera na mão, mas sem risco de imagens tremidas) ou o preto-e-branco que, com a generalização da cor, teria se tornado um recurso maneirista.
Nesse quadro, os "dogmas" nacionais começaram a proliferar. Marcelo Masagão, autor de "Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos", na base do bloco do eu sozinho, lançou seu manifesto "O Dogma & o Desejo". Nele se lê uma crítica veemente às superproduções nacionais, calcada em termos aritméticos: "Se o público médio para filmes nacionais é de 30 mil espectadores e o custo médio de cada produção é de R$ 3 milhões, cada espectador acaba custando cerca de R$ 100,00; é meio complicado, né?" Complicado, sim.
Segundo Masagão, só fazendo filmes baratos o artista pode exercer sua profissão com constância, e não de cinco em cinco anos, como ocorre hoje. Ele fala em números. De acordo com o texto do seu manifesto solitário, a tecnologia, hoje, permite desenvolver "projetos ousados" com não mais do que R$ 1 milhão de orçamento. Este seria o teto, pelo menos até a anunciada volta da inflação. Algo em torno de US$ 500 mil, orçamento médio de um longa-metragem no começo da retomada do cinema brasileiro, no início da década. Hoje, em tese, ninguém mais começa um longa com essa grana.
O número estabelecido por Masagão faz sentido para muita gente. O grupo do qual Toni Venturi faz parte iria chamar seu manifesto de Dogma 999. Por que o número? Porque estabeleceria esse limite, R$ 999 mil, para uma produção viável nas condições brasileiras de hoje. No entanto, o manifesto não saiu nem o grupo se assumiu como tal.
Mais radicais - e mais brincalhões - são os gaúchos Allan Sieber, Gustavo Spolidoro e outros que lançaram recentemente o Dogma 1,99. Mais uma vez: qual a razão do número? Eles respondem: é o preço de um sanduíche pago a quem trabalhou no curtíssimo Deus É Pai, desenho animado de pouco mais de três minutos, que ganhou o prêmio da crítica no último Festival de Cinema de Gramado, com soluções de baixo custo e alta criatividade.
Dogminha - O "dogminha do cinema de animação", como foi apelidado, tem preceitos ótimos. Por exemplo, diz o item 5: A locução e a trilha devem ser feitas em um dia e de primeira. Se não acertou da primeira vez, não vai ser isso que vai salvar seu filme. Item 6: É terminantemente vetada a realização de qualquer tipo de reunião antes, durante ou depois de o filme estar pronto. No máximo, uns e-mails ou uma cervejinha no boteco. E o 7: Indivíduos com instrução superior podem ir tirando o cavalinho da chuva. Para fazer parte do Dogma 1,99, o sujeito deverá ter, no máximo, o 2º grau completo. Quem falar que está fazendo curso de cinema apanha na cara.
Considere-se que a transcrição acima foi devidamente expurgada, pois os signatários do dogminha usam linguagem bastante livre. O mais recente "dogma" a pintar na área foi o Trauma 99, de Alexandre Stockler e Gustavo Steinberg, que estão captando recursos para o longa-metragem "Cama de Gato". Acham que a feitura de um filme não pode ultrapassar US$ 100 mil (pronto, está aí a dolarização de novo), já incluídas as cópias para exibição.
Trazem algumas novidades, como a premissa de que a realidade brasileira é uma grande novela e o grande trunfo da novela é a existência de um capítulo seguinte. Em consequência dessa tese, criaram três preceitos. No primeiro, o diretor deverá ser creditado como "tyrannos" (assim, em grego), deixando claro o caráter coletivo da obra. O segundo é assumir a precariedade da produção como estética da obra (lembrar a "Estética da Fome", de Gláuber Rocha). O terceiro é o mais original: utilizar sempre um personagem que já tenha aparecido num filme anterior do movimento - novela dentro da novela, ou "work in progress", como se quiser.
Mas há quem não queira ouvir falar em dogmas. O cineasta Sílvio Tendler, por exemplo, acabou de lançar, no Festival de Brasília, seu manifesto "Heresia 99", um anti-dogma, no qual prega a liberdade total de criação, sem preceitos e sem amarras. "Na verdade, sou a favor do cinema, da arte, nesse tempo em que só se discute economia, produção, mercado e formas de captação"
diz. Enfim, a discussão está aberta e vai longe.

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