Locarno,Suíça 10 (AE) - "Dois Córregos", dirigido por Carlos Reichenbach, é o único filme brasileiro a participar de uma competição internacional este ano. O filme será exibido no Festival de Locarno, Suíça, no dia 13. A produtora do filme, Sara Nunes Silveira, está em Locarno, onde faz a divulgação do filme junto a compradores. A seguir, trechos da entrevista com a produtora. Agência Estado - Quais suas primeiras impressões ao chegar aqui em Locarno? Sara Silveira - Para mim é uma satisfação estar com o filme "Dois Córregos" participando de um grande festival. Os filmes aqui são exibidos numa praça, para cerca de 9 mil pessoas. Nos recintos fechados a capacidade é de cerca de três mil espectadores. Para mim e para o Carlos Reichenbach é uma honra muito grande ter a oportunidade de participar desse festival de primeira linha. AE - Pode nos contar um pouco da sua experiência como produtora de "Dois Córregos"? Sara Silveira - Esse é o meu quarto filme com a lei do audiovisual e é a menina dos meus olhos. O filme foi realizado com pouco dinheiro, cerca de dois milhões de reais, obtidos no Brasil. O lançamento de "Dois Córregos" será dia 20 de agosto em Porto Alegre e 27 de agosto em São Paulo. Nossa participação na competição do Festival de Locarno alavancou nossa campanha de lançamento no Brasil. Ao mesmo tempo, a pre-estréia do filme será no Festival de Gramado, fora da competição no mesmo dia da apresentação aqui em Locarno. A coincidência é até no horário - às quatro da tarde da sexta-feira, 13. AE - Do que trata "Dois Córregos"? Sara Silveira - A ação do filme se passa em 1969. Trata-se de um guerrilheiro fugido da guerrilha, clandestino, que vai para a casa da irmã, onde convive com três mulheres, bem mais jovens, completamente alienadas da situação política brasileira. É um filme de emoções, muito sensível, um filme generoso de Carlos Reichenbach. AE - Como o filme "Dois Córregos" foi selecionado para Locarno? Sara Silveira - Nosso elemento de ligação com o festival foi Rodrigo Diaz, encarregado do cinema latinoamericano no Festival de Veneza. Foi ele quem nos aconselhou a enviar uma cópia para Locarno, mesmo se o tempo estivesse curto, pois a seleção parecia terminada. Eu estava em Paris, participando de uma mostra do filme brasileiro, agora em julho. Mandei o filme, numa sexta e ele chegou na segunda. De volta ao Brasil, cheguei na terça e ao chegar no escritório da produção, a secretária já me mostrou o fax com a seleção do filme para a competição de Locarno. Mais tarde, Marco Muller, o diretor do festival, me telefonou e disse ter gostado muito do filme, chegou mesmo a usar a palavra obra-prima. Fiquei eufórica, liguei imediatamente para o Carlão Reichenbach, que também participou da minha euforia. Num outro telefonema, Marco Muller me contou que sempre gostou do cinema brasileiro e dos filmes de Reichenbach. AE - Por que "Dois Córregos", nome do filme e de uma composicao de Ivan Lins, que musicou o filme? Sara Silveira - Carlão estudou em Rio Claro e sempre ia para Dois Córregos, que fica ali perto. Em Dois Córregos há uma estacao ferroviaria igual a de Marselha, na França, mas em tamanho menor. Carlão achava bonito o encontro de três rios - o Tietê, o Turvo e o Piracicaba, cada um com cores diferentes - e sempre dizia que um dia viria filmar e morar nessa cidade. Fizemos "Alma Corsária" e quando ele decidiu fazer esse novo filme, incentivado pela lei do audiovisual, Carlão decidiu que iria filmar de novo em Dois Córregos. Toda a ação do filme se passa à beira do rio. É um filme com muita água. Tem belas filmagens aéreas da região. Fizemos o filme numa região que precisava ser mostrada, uma região que vem passando por problemas econômicos e desemprego. É uma vastidão de verde com água e tonalidades diferentes. E assim realizamos o sonho de Carlão, dando até o nome do filme, que é o da cidade de Dois Córregos.

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