Produto social e valores artísticos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de junho de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Buscando uma visão panorâmica, atenta e aberta sobre a arte contemporânea, preferimos sempre optar, nesta coluna semanal, pela abordagem das questões de linguagem estética, sem perder a conexão com a realidade social e o contexto histórico em que o produto artístico está inserido. Selecionando obras, artistas, tendências e eventos a partir dos quais certos comentários são tecidos, buscamos sempre tratar dos interesses próprios do meio artístico, junto com a possibilidade do leitor compreender o assunto a partir de suas próprias referencias.
Entre falar mal de um artista, de uma determinada obra, ou de uma tendência, a opção sempre foi a de criar um ambiente propício para uma reflexão que de alguma forma tenham a ética e a estética como eixo temático. Encontrar o assunto mais pertinente para o momento nem sempre é tarefa das mais simples, não só porque a proposta de um determinado tema pode se diferir da de outro, mas também quanto ao método de abordá-la, já que cada tema propicia um determinado modo de ser mostrado. Em alguns casos, mais lírico. Em outros, de modo direto, sem meias tintas.
E daí? Deve-se estar perguntando o leitor já impaciente com rodeios e explicações. Daí que uma coisa é falar da arte e das considerações estéticas envolvidas na obra de arte, isto é, a sensibilidade, a criatividade, a expressão artística, o pensamento que o artista foi capaz de propor com determinada obra, etc.. A outra coisa é a de compreender que a arte, tanto quanto qualquer outro produto cultural, tem vínculos viscerais com instituições, mercado, circuitos e poderes onde não é possível entendê-la isolada do contexto que move a realidade social onde está inserida. Ela é agente, ao mesmo tempo que sofre a ação deste mecanismo.
Pois bem. Em nome da arte muito dinheiro sujo tem sido lavado para encobrir corrupções, muito dinheiro público tem patrocinado eventos, instituições, revistas, poderes e causas particulares onde a arte, o artista e a educação em arte e o público de arte são os menos importantes no negócio. Um circo montado para alguns poucos faturarem prestígio e poder, sem que haja nenhum tipo de desdobramento, discussão ou levantamento de questões que se ampliem além dos eventos em si. De repente aparecem do nada, como algo que cai do céu, sem diálogos, sem transparência nenhuma das decisões.
Particularmente sobre a arte contemporânea, há curadorias que defendem os aparatos eletrônicos - vídeos, computadores, neons, luzes piscando, ruídos sonoros, parafernália - como pressuposto de um pensamento artístico de vanguarda, como se o uso dos meios justificassem a expressão artística. Mais, impõem aos artistas a condição de usá-los caso venham a participar da mostra que organizam. Mais, injustiçam artistas dentro do próprio evento, oferecendo recursos a uns e deixando que outros se virem para conseguir mostrar seu trabalho. Abrem espaços para a crítica reacionária e formalista que prega a verdade absoluta do qual seus geniais artistas são portadores - idéias cristalizadas na posição confortável dos comentadores da realidade nacional e da cultura, de um modo geral -, gente que fica preservando no formol a auréola do artista.
O incrível disto tudo é que tais ações são justificadas como esforço para deixarmos o provincianismo, o que nos torna, de fato, provincianos. Não há razão para atendermos a nenhum apelo de sermos muderrnos. Temos é que abrir a discussão sobre a arte, particularmente, e a cultura, de um modo geral, sem restringi-la só a um suposto valor artístico, mas como produto gerado por um contexto social. Refletir sobre essas questões já é um começo.
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