Produção de Pernambuco vence festival em Goiás
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio Enviado especial 
Cidade de Goiás, GO, 06 (AE) - "Recife de dentro pra fora", da pernambucana Kátia Mesel, é o grande vencedor do 1º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). O filme ganhou o troféu Cora Coralina e prêmio em dinheiro de R$ 20 mil. O melhor longa foi "Dársena Sur", do argentino Pablo Reyeres. O prêmio para média-metragem ficou com Alice de Andrade
brasileira radicada na França, que trouxe a Goiás seu Le Pari Burkinabé. O melhor curta-metragem ficou para "Nord-Sud", de Dominique Soyer, também da França. Ganharam menções especiais "Bocamina", do espanhol Javier Codesal, e "Wars of the British Tree People", do inglês Mark Stucke. A melhor produção goiana foi "A Lenda da árvore Sagrada", de Eládio Garcia Sá Teles. O prêmio Unesco foi para "Auwe Uptabi" - "O Povo Verdadeiro", de ¶ngela Pappiani e Christina Florida, que venceu também o troféu Jangada, da Ofício Cinematográfico Católico Internacional (Ocic), com "Bubula", o Cara Vermelha, de Luiz Eduardo Jorge.
O que se pode dizer é que os júris agiram com precisão cirúrgica. Em termos estritamente cinematográficos, podem-se lamentar algumas omissões, como o emocionante "Por Longos Dias", de Mauro Giuntini, ou o sistemático desconhecimento de longas-metragens de valor como No Rio das Amazonas, de Ricardo Dias, ou "Terra do Mar", da dupla Eduardo Caron/Mirella Martinelli. Além disso, segundo afirmou seu presidente, o jornalista e ambientalista Washington Novaes, o júri teve de contornar diversas dificuldades na apreciação do material. Entre elas, definir se o núcleo temático do vídeo ou filme era ou não ambiental. Por isso sugeriu que nas próximas edições os critérios de seleção dos concorrentes sejam de tal forma explicitados que a questão ambiental esteja realmente no centro de cada obra.
Nada se pode objetar à vitória de "Recife de dentro pra fora". Em sua justificativa de prêmio, o júri diz que a escolha se deveu à "centralidade da questão ambiental, o tratamento dado à relação entre meio ambiente e pobreza no meio urbano do nordeste brasileiro e a originalidade da linguagem poética e musical, com economia de recursos".
Na mosca. Kátia Mesel começa o filme por uma sofrida entrevista com o poeta João Cabral de Melo Neto, doente e com dificuldades de fala, descrevendo sua relação com o rio de sua cidade e sua infância, o Capibaribe. Em seguida, a narrativa, de grande expressividade visual, é guiada pelo poema musicado "O Cão sem Plumas", de João Cabral. A relação entre o meio ambiente, belo e ao mesmo tempo degradado, e o homem, senhor do seu meio e também escravo de condições sociais abjetas, é expressa com toda graça poética.
Polêmicas - Não se pode dizer que o tempero da polêmica tenha ficado ausente da edição inaugural do Fica. O presidente da organização não governamental Assembléia Ecológica Permanente
o médico Roberto F. Lenox, procurou a AGÊNCIA ESTADO para dizer que a "dimensão sociopolítica do evento" tinha sido prejudicada porque as ONGs que tratam do meio ambiente não foram convocadas. Segundo Lenox, como o Fica é organizado com dinheiro público (teria custado R$ 917 mil, segundo seu depoimento), tem obrigação de prestar contas à sociedade civil.
Procurado, o cineasta João Batista de Andrade, coordenador-geral do evento, disse que, de fato, cerca de cem cartas de convite às ONGs deixaram de ser entregues devido a problemas de saúde do presidente da Fundação do Meio Ambiente de Goiás, Paulo Souza Neto, que deveria tê-las postado. "Na próxima edição isso não se repetirá e as ONGs serão contatadas"
promete.
O segundo atrito não se deu em termos tão civilizados. Durante o show de lançamento de livros, sábado à noite, perto da piscina do Hotel Vila Boa, alguém pediu a palavra para lembrar o nome do "verdadeiro idealizador" do Fica, o publicitário Luiz Gonzaga, morto meses atrás, numa briga de bar. João Batista de Andrade não se fez de rogado e retrucou que o governador Marconi Perillo, em pessoa, o convocou a assumir a coordenação-geral. Pior foi quando outro dos idealizadores passou a discutir com Andrade e partiu para o ataque, tentando agredir o cineasta. "Tudo não passa de ciumeira por causa do sucesso do evento", retrucou o diretor, mineiro de Ituitaba, agora radicado em Goiás.
De fato, baixarias à parte, toda essa disputa por prioridades é sintoma de que o Fica deu muito certo. Em matéria de política, ninguém reivindica paternidade quando a criança não tem saúde e boa aparência.


