Produção cultural x patrocínio
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de abril de 1999
Simone Mattos 
Por um lado, a cultura não sobrevive sem patrocínio. Por outro, as empresas descobrem que ser patrocinador é um ótimo negócio. Esta parceria entre artistas e empresários, que parece ter tudo para ser perfeita, entretanto, nem sempre é tão fácil de se estabelecer.
Em tempos de crise econômica, as empresas reduzem as verbas de apoio à cultura. Apesar de muitos projetos serem amparados por leis de Incentivo, que se baseiam na renúncia fiscal, quando o faturamento das empresas diminui a verba destinada ao marketing cultural cai, prejudicando os artistas.
Além dos problemas econômicos, o aumento expressivo no número de projetos que buscam patrocínios divide as empresas. Recebemos mais de dez propostas por mês, explica o diretor de marketing do Grupo Positivo, uma das empresas locais que mais investe em patrocínio cultural, Rogério Mainardes. O processo de escolha se baseia no conteúdo dos projetos.
Ele conta que o grupo já chegou a investir mais de R$ 1 milhão anual em marketing cultural. A recessão econômica baixou este valor para R$ 500 mil. Este foi o primeiro ano que não patrocinamos o Festival de Teatro de Curitiba, por exemplo, e já sentimos muito esta perda. Mainardes explica que o investimento cultural traz um retorno muito forte para a imagem da empresa.
Entre os atuais patrocinados pelo Positivo, ele destaca o projeto de música nativa Viola Quebrada, a peça Alice Através do Espelho e o filme nacional O Menino Maluquinho II - A Aventura.
Quem sente de perto esta perda são os produtores culturais, que travam lutas diárias para conseguir colocar um bom espetáculo no palco. A veterana Verinha Valflor, que está há 29 anos no mercado e já trouxe mais de 500 espetáculos nacionais para Curitiba, explica que a situação nunca esteve tão difícil. E sem patrocínio, não há show, resume.
A vinda de um grande espetáculo chega a custar R$ 100 mil, segundo explica Verinha. Muitas vezes já tive prejuízo, confessa. Ela diz que a tradição do seu nome muitas vezes atrapalha na hora de buscar patrocínio. Os empresários acham que eu não preciso de dinheiro, comenta.
Verinha explica que está conseguindo manter sua agenda de espetáculos graças a uma parceria cultural que fez há dois anos com o grupo Colombo Brastemp e que cobre cerca de 60% dos custos dos espetáculos trazidos por ela. As pessoas imaginam que este seja um universo de muito dinheiro e de muito glamour, mas na verdade é uma batalha dura, explica.
Na opinião da empresária especializada em marketing cultural, Maria Cristina de Andrade Vieira, ninguém mais gasta dinheiro à toa. Ela acredita que o mercado está temeroso e receoso. Em sua opinião, a profissionalização seria a saída para vender os projetos culturais.
Ela explica que o produtor cultural que coloca o projeto embaixo do braço e bate na porta das empresas para buscar um patrocínio, compete hoje com agências de publicidade e de marketing cultural, como a sua, a Andrade Vieira Arte, Cidadania.
Fazendo o caminho inverso, ela traça o perfil da empresa patrocinadora, avaliando o seu produto e público alvo. A partir daí, sugere um investimento cultural. É um trabalho lento, de plantar, compara.
Entre os seus clientes estão o Colégio Bom Jesus, a Sadia, a Siemens, a Volvo e a Telepar Celular. Ela diz que as empresas que estão chegando à Curitiba estão trazendo outra mentalidade, de maior conscientização quanto os benefícios do marketing cultural. Isto está mexendo com o mercado local.
A maior dificuldade, na opinião de Maria Cristina, é a falta de incentivo à cultura no Estado. O Paraná está muito mal posicionado nacionalmente e não tem leis estaduais de Incentivo à Cultura.
A Lei Municipal de Incentivo à Cultura, segundo explica, ajuda apenas pequenos e médios produtores. Os grandes projetos paranaenses não são beneficiados por nenhuma lei. Ela compara com a situação de São Paulo, por exemplo, onde investimentos anuais de R$ 6 milhões são uma realidade. Em Curitiba, uma grande empresa investe cerca de R$ 100 mil.
Outro exemplo citado por ela é o estado do Rio Grande do Sul, que recentemente ganhou o título de estado mais cultural do Brasil. Segundo Maria Cristina, apenas a Federação das Indústrias do Estado investiu em um ano R$ 1,6 milhão em projetos culturais. Enquanto isso, no Paraná o investimento foi zero.


