Procura-se uma história para ''Oriundi''
LONGA-METRAGEM
Procura-se uma
história para
Oriundi
ReproduçãoO personagem interpretado por Anthony Quinn em Oriundi vai à praia, numa cena totalmente dispensável
Paulo Polzonoff Jr.
Para compor seus poemas os poetas dadaístas, inspirados por Marcel Duchamp, colocavam algumas palavras em pequenos papéis num saco e, retirando-as a esmo, formavam aquilo que diziam ser beleza aleatória. Eram frases sem nexo, unidas em torno de uma pretenso ritmo natural, que não necessitava de métrica ou sentido absoluto.
Ricardo Bravo deve ser um admirador das idéias ultra-radicais de Duchamp. Seu primeiro longa-metragem, rodado em Curitiba e estrelado por ninguém menos do que Anthony Quinn, parece ter sido composto como os poemas dadaístas. Ricardo Bravo colheu algumas cenas e as juntou a esmo. O resultado é a ladainha de 97 minutos intitulada Oriundi.
A sinopse fornecida pela produção não tem rigorosamente nada a ver com o que se assiste na tela. Era para ser a história da família Padovani. O patriarca, Giuseppe, com 93 anos, fundou uma empresa que agora está à beira da falência pela má gerência de seu neto, Renato (Paulo Betti). Mas a família recebe a inusitada visita de Sofia (Letícia Spiller), que, ao que tudo indica (e absolutamente nada indica), é a reencarnação da mulher de Giuseppe, Caterina. Esta história que na teoria já se mostrava frágil com seu improvável mistério de reencarnação, na prática se torna um amontoado de cenas desconexas que só com muito esforço se pode considerar um filme.
O primeiro impacto desagradável (e são muitos) que o filme causa ao espectador é a fragilidade de seu roteiro, assinado por Marcos Bernstein, o mesmo de Central do Brasil. Os diálogos beiram o absurdo pela inutilidade. As frases são artificiais e despropositadas, discute-se amenidades em pontos que seriam cruciais na trama. Isto é, se houvesse uma trama. A história da família Padovani é um blefe. Não há mistério, não há intriga, não há nem aquela emoçãozinha barata que se pode esperar de uma novela mexicana. Não há nada.
Coitado do Anthony Quinn. Ao ver um ator que já contracenou com Marlon Brando (Viva Zapata!) agora em cena com Gabriela Duarte, fica visível a diferença entre um talento nato (ainda que num papel sofrível) e um pré-projeto de atriz. Aliás, estou até agora questionando a razão da existência da personagem Patty, interpretado por Gabriela Duarte. Aliás, nenhum dos personagens justifica sua existência. Decididamente, Oriundi deveria ser um monólogo.
Não bastassem serem inúteis, os personagens ainda são mal construídos. Renato começa como um playboy cuja intenção é levar a empresa da família à bancarrota e acaba como um netinho bondoso e resignado com a sapiência do avô. Sofia começa como a reencarnação de Caterina e termina como uma assombração, misto de anjo e sexy-symbol. Patty começa como uma estudante de Direito querendo ser atriz e permanece durante todo o filme tentando, tentando, tentando. Matilde, a enfermeira de Giuseppe, é descartada sem mais nem menos depois de meia-dúzia de diálogos sobre uma lenda da criação baseada na centopéia (nada de risos. É sério!). Dr. Enzo (Paulo Autran) é um médico que não medica, instalado num consultório escuro.
Várias cenas são dignas de citação e da mais sincera piedade por serem patéticas como pretenso exercício cinematográfico: um longo vôo de ultraleve que não leva a lugar nenhum; um jantar de comida japonesa numa típica família italiana; uma viagem à praia sem razão de ser; um mergulho nas águas geladas com um só par de meia; uma anti-higiênica cena de amor sobre sacos de farinha; uma importante reunião de negócios num prédio em construção; uma consulta médica ao ar livre no Parque Tanguá; vários takes aéreos sobre Curitiba; uma peça de teatro sobre imigração italiana que surgiu do nada para o nada; o divórcio de Renato e Chris (Raquel Rizzo, um talento desperdiçado); uma conversa sobre a provável idade de um pangaré; e, para finalizar, o beijo de Giuseppe num menininho que surgiu do nada (na vida real, filho de Anthony Quinn, Ryan Nicholas Quinn).
Erraram a mão - e feio - o diretor Ricardo Bravo (deslumbradíssimo na pré-estréia) e o roteirista Marcos Bernstein. Nem a música de Arrigo Barnabé, eclipsada por tantos defeitos, se salva. O mais espantoso é que Ricardo Bravo e Anthony Quinn estão trabalhando juntos num novo projeto.
O filme permanece em cartaz durante duas semanas em Curitiba e estréia em circuito nacional em dezembro quando, salvo uma campanha de marketing monstruosa, deve ser solenemente ignorado pelos blockbusters de Natal. Meno male.





