Procura-se o 'Monumento do Lixo'
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terça-feira, 08 de novembro de 2011
Nelson Sato <br> Reportagem Local 
O percurso da arte contemporânea registra incontáveis polêmicas ao longo de sua história recente. O ''I Prêmio Londrina de Arte Contemporânea'' parece não ter escapado a essa tradição.
Desde a última sexta-feira, o salão do concurso está desfalcado de um dos trabalhos expostos - o ''Livro Fotográfico'' de Valdicéia Frei, uma das 26 artistas selecionadas para a exposição inaugurada na última quinta-feira e que permanece aberta ao público até o dia 20 deste mês no Museu de Arte.
A retirada do livro, porém, foi um protesto pelo desaparecimento de uma instalação da artista no Lago Igapó II, ocorrido na manhã da mesma sexta-feira. A obra sumida, intitulada ''Monumento do Lixo'', consiste em um saco confeccionado com materiais recicláveis e camadas de plástico-filme.
''Eu coloquei no fim da tarde de quinta-feira. Ele ainda foi visto às sete horas da manhã de sexta-feira. Ao meio-dia já não estava mais lá. Não sei o que aconteceu, já que eu fui cuidadosa e meticulosa ao elaborar o projeto. Percorri todas as instâncias oficiais, passando pela fiscalização da CMTU e pelo laudo técnico da Secretaria do Meio Ambiente (Sema)'', conta ela.
Valdicéia afirma que enviará ofícios pedindo providências à Secretaria Municipal de Cultura e à Guarda Municipal, responsável pela segurança de espaços públicos da cidade.
O Secretário de Cultura, Leonardo Ramos, afirmou que iniciará uma investigação sobre o desaparecimento da obra assim que receber o ofício da artista. ''Vamos procurar saber se a iniciativa partiu de algum funcionário da Prefeitura, embora acredite que seja vandalismo, já que ela tinha autorização oficial para expor a obra no local.''
O idealizador do I Prêmio Londrina de Arte Contemporânea, Marcos Costa, também lamentou o incidente. ''É um fato bastante desagradável, especialmente porque realizamos o evento com o objetivo de valorizar os artistas e a arte contemporânea. O que entristece é saber que não é a primeira vez que vemos a arte sofrer danos na cidade. Temos vários monumentos pichados e nunca ninguém se responsabilizou. Espero que, desta vez, encontrem o responsável'', assinala.
Valdicéia explica que retirou o livro do Museu de Arte com receio de que ele também desapareça. Segundo ela, o trabalho inscrito para o evento consiste em intervenções urbanas. A primeira ação foi uma performance em que deixou rastros de tinta branca da Rua Joaquim de Matos Barreto (próxima à transposição do Lago Igapó 2) até a entrada do Museu de Arte na Rua Sergipe, passando pela Avenida Higienópolis.
O ''Monumento do Lixo'' veio em seguida. Uma terceira intervenção está prevista para este mês. ''Mas será uma surpresa, não posso adiantar nada'', diz ela. De acordo com a artista, todas as ações ''integram um projeto complexo de discussão da questão ambiental e ecológica de Londrina'', iniciado no ano passado quando retornou à cidade depois de morar cinco anos em Campo Mourão (PR).
''Estou estarrecida com o descaso das autoridades e da população em relação à arte e à preservação dos espaços públicos'', assinala. ''Fotografei muita coisa para o livro que, junto com as intervenções, tem o objetivo de despertar a consciência ambiental das pessoas para criar um olhar transformador. Penso no futuro de minha filha, das crianças, das futuras gerações. A comunidade precisa se mobilizar e abandonar a cultura de delegar as iniciativas sempre ao outro.''
A artista postou vários vídeos no site YouTube com imagens e explicações detalhadas sobre o projeto.


