Procura-se jornalista, vivo ou morto
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de março de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
O jovem jornalista e escritor Roberto Saviano, autor de bem-sucedida obra literária investigativa com alto teor de combustão - 1,5 milhões de exemplares e 30 traduções desde sua primeira edição em 2006 - é neste momento um homem condenado à morte. Em paradeiro incerto e não sabido, protegido pela polícia (o que a princípio não parece lá muito seguro...), ele ganhou status de foragido porque resolveu contar a verdade sobre aquele que é reconhecidamente o mais violento e perverso braço entre as facções mafiosas da Itália.
Consciente de que muito já tinha sido escrito e filmado sobre famílias mafiosas, Saviano decidiu trazer um novo ponto de vista. Que não inventa nada, apenas se limita a contar com extremo realismo o que ele viu e investigou. ''As pessoas estão fartas de ficção em torno do crime organizado'', disse ele. Em vista disto, eliminou qualquer glamour em torno da tipologia mafiosa. E justificou: ''Não falo de delinquência comum, mas de organização poderosíssima. No mesmo dia da queda das Torres Gêmeas, enquanto o mundo via aterrorizado aquela imensa tragédia, dois chefes da Camorra tratavam de especular por telefone, visando a compra de uma enorme área de repente livre no centro de New York...''
O cineasta Mateo Garrone resolveu entrar em sintonia direta com o Saviano (aqui também roteirista), e desta colaboração nasceu ''Gomorra'', premiado em Cannes ano passado com o Grande Prêmio do Júri. Os onze capítulos do livro foram reduzidos a cinco histórias entrelaçadas que dão conta de diversos estilos e práticas mafiosas: uma guerra entre bandos no bairro em que a polícia nem se atreve a pisar; o ambiente de quarteirões deteriorados, onde se compra e vende drogas a céu aberto; um alfaiate pago por um mafioso para confeccionar alta-costura a preço de banana, e que também trabalha para um grupo de chineses; Ciro, um cobrador da Camorra que cai em desgraça; e dois jovens deslumbrados que encontram por acaso umas armas, se fazem de machões e acabam mortos porque, para a Camorra, não é lá muito funcional que haja tiros em demasia... No todo, um mosaico de tipos humanos envolvidos em ações que condensam com eficácia o completo universo da criminalidade mafiosa.
Garrone apostou numa linguagem direta e realista. A câmera na mão se transforma em plano sequência, sem cortes, e que somente é interrompido quando já não pode narrar com comodidade. É este estilo que confere autoridade documental ao relato. É quase onipresente a fotografia ''suja'', bem como o dialeto napolitano e o acento característico dos personagens responsáveis por extraordinária autenticidade. A ambientação desprovida de qualquer atrativo visual também contribui para acentuar a veracidade. Uma montagem fragmentária não é muito feliz nos primeiros momentos do filme, exigindo do espectador certo esforço para se colocar na narrativa. Mas esta trama de histórias e personagens entrelaçados constitui hoje um estilo de fazer cinema - vide os filmes de IÀárritu, ''Amores Perros'' e ''Babel''.
''Gomorra'' é a antítese do cinema ''mafioso'' de Scorsese porque aqui os bandidos são tipos medíocres, sebosos, desgraçados, desprovidos de qualquer atrativo pessoal. E criminosos adequados ao novo século. A denuncia de Saviano e Garrone dá conta de que novos desdobramentos da atividade mafiosa estão ocorrendo além da tradicional prostituição e do tráfico de drogas. Hoje, empresas camorristas estão envolvidas com crimes ambientais e infiltradas no mundo da alta moda, colocando no mercado roupas de grife e assim refinando a lavagem de dinheiro.
É sem dúvida um filme de imprescindível valor documental.


