Basicamente o que vem a ser a fotografia? Melhor, quais são os recursos que o processo fotográfico revela além da foto, da imagem revelada que mandamos para o laboratório, para pegar em uma hora, ou que pode ser manipulada conforme o uso que se queira dela?
Insight, iluminação, lucidez, revelação, clareza, instante de luz ou deslumbramento. Queimar uma chapa pode ser uma metáfora para diversas situações, surgindo daí não só uma imagem, mas uma linguagem, um conceito, uma idéia luminosa.
Da Vinci inventou a câmara escura, que projetava a imagem exterior dentro da caixa através de um pequeno furo. NiSpce conseguiu fixar a imagem recorrendo a uma chapa coberta de cloreto de prata, três séculos depois, em plena era industrial, da reprodutibilidade técnica, da serialização dos produtos. A fotografia logo se popularizou.
Sua mágica consiste em congelar a fugacidade do momento, em registrar o impermanente. Em transformar a visão da realidade, reforçando-a. Seja um simples escorregão em que o fotógrafo, atento, é capaz de captar, seja no meio de uma guerra, sintetizando uma situação histórica. Aliás, cada vez mais a história é narrada no tempo de seu acontecimento. A construção de cabos, canais, antenas, fios, redes, tramas, satélites por onde se cruzam as ondas, servem para que os eventos sejam divulgados no instante do seu acontecimento. Instantaneamente. Instantâneos. Sem perda de tempo. Mais, é possível pensar que a história relata sua própria construção, como nos pregam os teóricos da pós-modernidade. Vivemos para contar histórias.
Mas não é só no campo do registro documental que a fotografia altera a percepção da realidade, mesmo quando ela busca apresentar contas apenas das aparências, com a maior fidelidade possível. Como recurso de arte ela logo se transformou em linguagem poética e são múltiplos os caminhos explorados.
Assim podemos pensar que há, além da categoria dos fotógrafos documentais, os fotógrafos-artistas – que respeitam o limite técnico estabelecido pelas regras fotográficas –, e também os artistas mesmo, que mantêm relações de uso com os princípios e as técnicas fotográficas em razão apenas da lógica interna de suas obras, alterando os processos, manipulando códigos, o ato fotográfico em si, os processos químicos, ou mesmo a apresentação do material exposto, criando verdadeiras obras que podem ser, ao mesmo tempo, fotografias, pinturas, desenhos ou instalações.
São vários os artistas que usam o potencial do processo fotográfico para discutir questões pertinentes ao seu trabalho. Podem retratar tanto o luxo quanto a miséria. Podem expor tanto questões sociais, quanto psicológicas e até transformar o espaço expositivo seja em claustro seja em lugar de aconchego. Apropriar-se de imagens alheias, manipular os negativos fotográficos, enfim, arte e história, documentação e interferência, como em click do instante fotográfico, vamos deixando nossas marcas no tempo, como se ele fosse, aos poucos, consumindo o espaço ao nosso redor. O flash luminoso nos ensina que a luz pode cegar.
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