Problemas em larga escala
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terça-feira, 05 de julho de 2011
Márcio Maio <br>TV Press 
''Na televisão, nada é fácil''. A afirmação de Jayme Monjardim traduz a opinião de quase todos os envolvidos em gravações de novelas, seriados e minisséries. Mas basta uma análise mais profunda a respeito de determinadas sequências exibidas na tevê para uma cena de diálogo entre dois atores se tornar ''fichinha''. Seja em um casamento mais elaborado, uma invasão policial em uma favela no morro ou até mesmo uma batalha épica, muitos são os detalhes que envolvem essas superproduções dentro de um folhetim. ''Já levei um mês para realizar uma cena que, no ar, levou 30 minutos'', lembra Alexandre Avancini, diretor que passou 30 dias trabalhando com sua equipe no morro Tavares Bastos, no Rio, para dar mais veracidade a um tiroteio no primeiro capítulo de ''Vidas Opostas'', exibida pela Record em 2006.
Desde controlar mais de 500 figurantes até transportar o equipamento envolvido para o topo do morro, em muitos trechos sem a ajuda de automóveis, vários foram os problemas enfrentados nessa época. Conceituado na emissora por suas tomadas de ações, o diretor, que atualmente trabalha em ''Vidas em Jogo'', já passou por situações semelhantes por sempre preferir gravar em locações. Uma realidade que também foi vivenciada por colegas da Globo.
Ricardo Waddington, por exemplo, ficou mais de uma semana em Vassouras, no interior do estado do Rio de Janeiro, tentando realizar uma sequência de casamento que, por conta de uma chuva insistente, só pôde ser feita no Riocentro, no Rio de Janeiro. ''Reproduzimos Vassouras ali. Começamos as gravações em um lugar e terminamos em outro. E o melhor: ninguém percebeu as diferenças'', conta Waddington, orgulhoso.
Casamento é sempre sinônimo de muito trabalho para as equipes de televisão. Em ''Ribeirão do Tempo'', da Record, por exemplo, para unir os mocinhos Tito e Filomena, de Angelo Paes Leme e Liliana Castro, a produção, direção de arte e equipe de cenografia tiveram de cortar um dobrado. Só no que diz respeito à decoração, foram mais de 50 dúzias de rosas, 28 dúzias de lírios, 80 maços de astromélias e 600 orquídeas. ''Flores são frágeis, precisam ser repostas'', explicou a produtora de arte Andréa Moraes. Isso sem contar nas taças e copos.
Outro detalhe que conta em eventos como esse é a maquiagem. Enquanto uma cena de estúdio pode ter temperatura de cerca de 17ºC, externas no Rio de Janeiro chegam a beirar os 40ºC em tempos de calor. ''Casamento é complicado. Não é só igreja, envolve uma festa, show musical, são vários detalhes para se preocupar'', valoriza Jayme Monjardim, que realizou em ''Viver a Vida'' uma megaprodução para casar a modelo Helena, de Taís Araújo, com o empresário Marcos, de José Mayer. O autor também chegou a contar com mais de 1000 figurantes em uma cena de batalha da minissérie ''A Casa das Sete Mulheres'', da Globo.
Para gravar eventos que reúnem grande parte do elenco - caso típico de casamentos, enterros e shows -, a ordem, geralmente, é fazer os planos abertos no primeiro dia. ''No dia seguinte, na hora de fechar os closes, podemos usar menos figuração, o que facilita o trabalho e diminui os custos'', informa Avancini. Mas, no caso de shows, normalmente, tudo se encerra em apenas um dia. Como na participação especial da banda Calypso no seriado ''Tapas & Beijos'', da Globo. Na gravação, um detalhe conseguiu, simultaneamente, ajudar e, de certa forma, atrasar um pouco as atividades. Na plateia, não estavam figurantes comuns, mas sim membros de fã-clubes do grupo. ''Só queria lembrar que a gente não está em um show de verdade. Cantem e dancem, mas controlados. É uma gravação'', lembrou o diretor Maurício Farias, ao microfone, no estúdio do Projac, no Rio.
Se gravar por aqui já é complicado, quando as locações escolhidas estão no exterior o esforço pode ser ainda maior. Além de ter de contar com equipes locais, muitos detalhes precisam ser minimamente cuidados para justificar tamanho custo de produção. Em ''Cordel Encantado'', para as cenas da batalha entre Seráfia do Norte e Seráfia do Sul, foram alugadas as selas dos cavalos dos reis, que, por serem muito específicas e de difícil reprodução, foram emprestadas e trazidas para o Brasil. Mas alguns objetos usados também chegaram a sair daqui para lá, como bandeiras e lanças. Ao todo, oito caixas delas. ''Hoje, já existem recursos técnicos que nos ajudam. Imagino como deve ter sido complicado filmar 'Lawrence da Arábia' na década de 60'', pondera Ricardo Waddington, referindo-se ao clássico dirigido por David Lean em 1962.
Sinal de prestígio
Sequências com ares de superprodução são encaradas como um grande diferencial entre as equipes. Tanto que já é quase uma obrigação novelas e minisséries se iniciarem com cenas assim. Em ''Morde & Assopra'', por exemplo, o terremoto que destruiu a pesquisa de Júlia, mocinha vivida por Adriana Esteves, no primeiro capítulo levou mais de dez dias para ser gravado. O trabalho começou no Japão e se encerrou no Brasil. Mesmo caso das cenas de perseguição que tiveram até helicóptero em Miami para dar o pontapé inicial na trilogia ''Caminhos do Coração'', na Record, em 2007. ''Usamos locações que chegavam a custar 30 mil dólares por cada diária'', entrega Alexandre Avancini.
Mas para algumas equipes, grandes eventos fazem parte da rotina de gravações. Jayme Monjardim, por exemplo, que vem dirigindo as obras do autor Manoel Carlos, garante que essas cenas, em diversos trabalhos, não são exploradas só na reta inicial ou final. ''Geralmente, temos um por semana. Pode ser um jantar que envolva um grande número de pessoas do elenco ou desfiles de moda como os que fizemos em 'Viver a Vida''', lembra. Mas tudo tem um custo. Os diretores não falam abertamente em números, mas Alexandre Avancini dá uma ideia do quanto isso pode significar no orçamento de uma produção. ''Determinadas cenas, quando envolvem ação, podem custar em torno de 200 a 300 mil dólares por dia'', desconversa.
Instantâneas
Em Rebelde, foi ao ar recentemente a cena do primeiro show da banda formada pelos mocinhos do folhetim. A gravação contou com mais de 350 pessoas envolvidas, a maior parte de figurantes.
Em cenas que envolvem muita gente e dias de trabalhos, os diretores costumam contar com três ou até quatro assistentes de direção.
Atualmente, é comum em várias sequências multiplicar o número de pessoas na plateia de grandes eventos ou em batalhas épicas no ar com o auxílio da computação gráfica.
Uma das pessoas mais valorizadas em cenas que envolvem grande parte do elenco e duram mais de um dia é o continuísta. É ele o responsável por registrar todos os elementos presentes nas cenas para, no dia seguinte, reproduzi-los nas mesmas condições.


