Prince se reencontra com James Brown
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quarta-feira, 24 de novembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 24 (AE) - Tire tudo o que anda patinando no seu aparelho de som. De vez em quando o sujeito que se chamava Prince (atualmente autodenominado simplesmente O Artista), volta a nos surpreender com algum novo atalho musical. E esta é uma dessas ocasiões. "Rave Un2 the Joy Fantastic", por meio de uma inesperada leitura funky da sonoridade sintética da atualidade, aponta para uma nova mainstream dentro da música popular americana. A música da noite pós-disco se deixou seduzir, desde cedo, pelos beats industriais (antes, fôra amamentada pelo rhythmnblues e pelo soul negros). Prince Rogers Nelson, inesperadamente bem-disposto, se propõe a realinhar os satélites
se reencontra com James Brown e as origens.
Não se confunda: em agosto, a Warner Music lançou um resto de gravações recolhidas por Prince entre seu acervo particular de velharias, "The Vault Old Friends 4". Eram dez canções registradas entre janeiro de 1985 e 1994. Isso aqui não tem nada a ver com aquilo, que é um material fraco. "Rave Un2 the Joy Fantastic" é novíssimo, é o que ele tem a dizer agora.
Prince não está tão lascivo como dantes, mas mostra-se igualmente irônico. Voltou acompanhado de personalidades da música pop atual, astros descartáveis como Eve, Gwen Stefani (a loirinha vocalista do No Doubt), a gritalista Ani DiFranco, a maneirista Sheryl Crow e Chuck D, além de Maceo Parker.
Qual é a idéia? Mostrar que a música popular, como a política, nasce e vive de uma dialética constante, que envolve uma troca de informações e alguns conflitos. Michael Jackson é um exemplo disso. Prince parece criar uma eletricidade subliminar, um nível de sofisticação subterrânea debaixo de duas melodias fáceis e digeríveis: "So Far so Pleased" (com Gwen Stefani) e "Hot Wit U" (com Eve). Ele cozinha folk, hip-hop, pop, rhythmnblues, country e outras levadas com inesgotável talento. É de novo o nosso preferido funk soul brother.
E o que é a baladona "I Love U but I Dont Trust U anymore" (com Ani DiFranco)? Um pianinho mínimo, pré-Stevie Wonder, e um dueto entre aplicação preciosista e devaneio anarquista. Essa menina devia erguer as mãos para o céu pelo fato de O Artista ter-lhe dado a boquinha.
"Silly Game" é a evidência de que Burt Bacharach está mesmo na moda. "Stange but True" é um James Brown para o século 21, com um teclado de outro mundo. E "Wherever U Go, Whatever U Do" inova no baixo circular, mântrico.
Para finalizar, a sátira "Pretty Man", com Maceo Parker. É um retorno de Prince ao seu passado "Purple Rain", mas com cozinha também jamesbrowniana. A pesquisa de Prince, no entanto, traz novidades em solos de guitarra, em arranjos, em ousadias que pareciam impossíveis de ocorrer agora. O ano parecia encerrado. Não estava, absolutamente.
Curioso notar que Prince usa aquele símbolo impronunciável para designar seu trabalho como performer. Na produção do disco, ele assina o antigo Prince. Será que não considera o trabalho de produção um trabalho artístico? Serviço - "Rave Un2 the Joy Fantastic". CD de Prince. À venda nos sites studiotan.com.br ou shopping.yahoo.com. Preço médio: R$ 35,00


