Iara Lessa
De Londrina
Especial para a Folha2
Cores fortes e vibrantes abrigadas pelos hábeis traços surgidos das mãos de 20 artistas de todo o Brasil. As obras, mais de cem, estão ‘‘guardadas’’ sob o inquisitor olhar de um gigante negro com mais de três metros de altura. É neste cenário de símbolos oníricos que começa hoje, na Secretaria Municipal de Cultura de Londrina, a 14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares.
Tradicional evento do calendário cultural da cidade, a Mostra este ano destaca e arte primitivista e traz para Londrina artistas do calibre de Waldomiro de Deus, Sebastião Mendes, Lourdes de Deus, Nerival Rodrigues, entre tantos outros.
Para Fernando Martinez, gerente de Patrimônio Artístico da Secretaria de Cultura e um dos organizadores do evento, a principal característica da mostra é sua continuidade. ‘‘Poucos eventos culturais têm a vida tão longa quanto a Mostra Palmares. Mais de 700 artistas de todo o Brasil já participaram expondo seus trabalhos. É uma vitória em um país como o nosso, uma mostra, que nasceu sob o signo da reistência e da luta contra o preconceito, durar tanto’’, analisa.
Talvez a vertente mais antiga do mundo das artes plásticas, a chamada arte primitivista (que tem nas artes ruprestes - pinturas feitas nas cavernas por homens primitivos - um dos seus pilares) tem terreno fértil e garantido em solo tupiniquim. O Brasil é um dos cinco grandes no tema, acompanhado pela França, Itália, Haiti e a esfacelada Iugoslávia.
Caracterizada principalmente pela presença de temas folclóricos, traços primitivos - o que, em momento algum quer dizer que o artistas não domine técnicas de desenho, ou coisa parecida - cores alucinantes e temas ligados aos ambiente do artista, a arte primitiva abriga também sua vertente, a tão falada e festejada arte Naif, que, a grosso modo, apresenta todas essas características mas trata mais especialmente de temas urbanos.
O termo Naif, aliás, foi usado pela primeira vez pela imprensa francesa no final do século 19, quando o artista plástico francês Henri Rousseau e mais uns 20 outros artistas, foram impedidos de participar da Mostra de Arte Francesa por causa da característica, digamos assim ‘‘ingênuas’’, dos trabalhos. O traçado primitivo, que enfurecera os organizadores do evento, foi apresentado ao público em uma mostra paralela, uma espécie de manifesto contra o cenário das artes plásticas da época. A crítica especializada francesa chamou os trabalhos de Naif, palavra que designa algo em estado bruto, sem lapidação.
A mostra londrinense, que tem sua abertura oficial hoje, às 20 horas, na Secretaria de Cultura, também aposta no intercâmbbio entre os artistas. Para Agenor Evangelista, artista plástico e um dos organizadores da mostra desde de sua criação, o principal é mesclar artistas consagrados com novatos. ‘‘O intercâmbio entre artistas renomados e os que estão começando agora é fantástico. Não é sempre que temos a oportunidade de trocar uma idéia com alguém como o Waldomiro de Deus, por exemplo, um marco e uma referência na arte primitivista no mundo todo. Este intercâmbio esteve presente em todas as edições, e isto vale muito’’, acredita.
A mostra, que prossegue até o dia 11 de dezembro, tem a promoção da Secretaria Municipal de Cultura e Mecab - Movimento de Estudos da Cultura Afro-Brasileira. Na abertura oficial também acontece a apresentação dos músicos Doni Paraná e Edio Souza, além do grupo de rap Estilo Negro (o antigo Estilo Black).
14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares - exposição com 100 trabalhos (pintura, forografia e escultura) de 20 artistas de todo o Brasil. Na Sala José Antônio Teodoro, Praça Primeiro de Maio, 110, em Londrina. Horário de visitação: de segunda à sexta-feira, das 8 às 11 horas e das 13 às 18 horas.A 14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares começa hoje em Londrina. A edição deste ano privilegia a arte primitivista e traz à cidade nomes consagrados
ReproduçãoZumbi: escultura de Gilberto Savério, com mais de três metros de altura, ‘‘guarda’’ as obras da Mostra PalmaresReprodução‘‘Arrebatamento’’: tela de Lourdes de Deus em exposiçãoReprodução‘‘Estranha Presença’’: tela de Waldomiro de Deus, exemplo de arte primitivista brasileiraReprodução‘‘Eu sei o que vocês fizeram a meus antepassados’’: tela do londrinense FrutuosoReprodução‘‘Cabeça II’’: ecoline sobre papel do londrinense Edvaldo JacintoPaulo WolfgangDa esquerda para a direita, Nerival Rodrigues, Sebastião Mendes, Waldomiro e Lourdes de Deus: representantes máximos do primitivismo brasileiro integram a Mostra Palmares

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