Primeiros passos do empreendedorismo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Micaela Orikasa <br>Reportagem Local 

Se tem uma lição que os alunos da Escola Municipal Maestro Andréa Nuzzi, na zona sul de Londrina, aprenderam em 2017, foi a de extrapolar o campo das ideias e partir coletivamente para a ação.
Eles conquistaram o 2º Prêmio Sebrae de Educação Empreendedora Paraná, na categoria Fundamental I, com o projeto "Parceiros do Bem". Ao todo, foram realizadas cerca de 300 inscrições em todo o Estado.
De março a dezembro do ano passado, todos os 180 alunos do 1º ao 5º ano, trabalharam em conjunto na reprodução de jogos clássicos que estimulam o raciocínio lógico, coordenação motora e memória.
A fórmula para tamanho reconhecimento foi além da reutilização de materiais recicláveis. A atividade tinha como objetivo, ajudar o próximo e toda a produção foi doada aos idosos internados no Hospital Zona Sul de Londrina.
"Gostei muito dessa experiência. Eu percebi a felicidade dos pacientes e aprendi que fazer o bem é a melhor coisa. Acho que a gente poderia fazer isso mais vezes", conta Matheus da Silva Costalonga, agora no 5° ano. Ele foi o representante de todos os alunos na entrega dos materiais no hospital, no final do ano passado.
Além do processo de criação de jogos como dama, ludo, trilha e gamão, houve ainda a preocupação em confeccionar peças fáceis de serem manuseadas e que possam ser higienizadas.
"A escola toda se reuniu para criar essa 'empresa'. Para isso, cumprimos várias etapas, como o planejamento, a criação de um plano de negócios e execução. Pensamos em fazer algo para a comunidade e chegamos até à direção do hospital, que nos apontou a demanda de idosos acamados, muitos sem acompanhantes", conta a professora Maria do Carmo Bezerra.
Ela foi responsável pela atividade ao lado da professora Patrícia Carvalho. Os alunos ainda escreveram cartas, mensagens de bons desejos e criaram ilustrações a partir de crônicas de autores brasileiros.

"Tudo foi devidamente plastificado e higienizado para que pudessem ficar expostos em uma árvore montada no hospital. Além disso, alguns alunos desenharam como uma releitura de obras de arte, temas voltados ao divertimento e brincadeiras da infância", diz.
Soltar a imaginação nos desenhos, aliás, foi o processo mais interessante para Letícia Maria Yoshitori, do 4° ano. "Fiz alguns animais para os jogos de memória enquanto pensava na diversão dos idosos", conta.
Já o Joshua Emanuele Santos Barcellos adorou a possibilidade de construir brinquedos. "Eu fiz um de acertar a bolinha de gude na garrafa e ficou muito legal. Eu nunca tinha feito nada parecido antes", comenta.
Outros itens produzidos por cada turma também foram entregues aos pacientes, seguindo as cinco temáticas do projeto: Ervas aromáticas (1° ano); Temperos Naturais (2° ano); Oficina de Brinquedos Ecológicos (3° ano); Prestação de Serviços (4° ano) e Alimentos (5° ano).
A cerimônia de entrega do prêmio estadual foi no dia 27 de abril, em Curitiba, e as professoras responsáveis pelos projetos ganharam além de troféus e certificados, pacotes de viagem completos para participarem de missão técnica nacional onde irão conhecer experiências de sucesso em educação empreendedora no Brasil.
Na categoria Ensino Fundamental II o Colégio Militar de Curitiba venceu com o projeto "Graxinha". Os alunos do 9° ano identificaram a necessidade de manterem seus coturnos lustrados, planejaram e desenvolveram panfletos e vídeos para divulgação dos serviços de engraxataria.

Network e educação para o futuro
Se antigamente não havia a preocupação em despertar o comportamento empreendedor em sala de aula, hoje isso é praticamente uma palavra de ordem. A professora Bezerra diz que o papel dos educadores em tempos atuais também é de preparar os alunos para enfrentarem o mundo atual.
"Novas profissões estão surgindo e eles precisam desenvolver desde cedo a criatividade, autonomia, responsabilidade e iniciativa. É muito importante eles aprenderem a correr ricos calculados e desenvolverem o network, isto é, montar uma rede de contatos. No caso da nossa escola, tivemos o hospital e familiares envolvidos", comenta.
Para Ayrha Fernanda Bezerra dos Santos, aluna do 5° ano, que atuou na prestação de serviços acompanhando e auxiliando o trabalho de todas as turmas, o maior aprendizado foi o ganho de experiência.
"Aprendi a trabalhar mais em grupo, a ter iniciativa e buscar soluções. Por exemplo, uma peça que tinha dado errado, a gente tinha que pensar logo em arrumar, dar um novo sentido para aquilo", afirma.
Segundo Bezerra, esse universo de aprendizado que traz novos estímulos para o ler e escrever, desperta ainda o desenvolver em comunidade e os alunos conseguem vivenciar o sentimento da realização pessoal.
"O prêmio só reforça que boas práticas levam ao sucesso e pode transformar a vida de outras pessoas. Conquistar o primeiro lugar foi um estímulo para os alunos perceberem que mesmo com pouco, eles conseguem pensar em novas possibilidades e colocá-las em prática", completa.
A diretora da escola, Mercia Maria Cardoso Tavares da Silva, conta que os alunos estão com muita vontade de continuar o projeto, "pois a conquista do prêmio demonstrou a eles não só a importância de uma ação social, mas fez com que enxergassem toda a dimensão deste trabalho", ressaltou.

De olho nas boas práticas educativas
Um dos caminhos para trabalhar o empreendedorismo em sala de aula é através do projeto JEPP (Jovens Empreendedores Primeiros Passos), desenvolvido pelo Sebrae em parceria com as secretarias municipais de Educação.
Em Londrina, ele acontece desde 2014, com o objetivo de disseminar a cultura empreendedora em alunos do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental para estimular o protagonismo e a iniciativa futura na busca de possibilidades de inserção no mercado de trabalho.
Para isso, o JEPP trabalha com temas transversais em cultura da cooperação, cultura da inovação, ecossustentabilidade, ética e cidadania. Semanalmente, as unidades escolares aplicam atividades teóricas e práticas em sala de aula e para isso, os professores passam por capacitação junto ao Sebrae, que oferece ainda o material pedagógico.
De acordo com Daniele Montenegro Conte, coordenadora de Educação Empreendedora e consultora do Sebrae/PR, "o objetivo principal é promover a inserção de conteúdos de empreendedorismo em todos os níveis da educação formal. Para isso, são aplicadas metodologias apropriadas para cada nível de escolaridade", afirma.
Em relação ao Prêmio Sebrae de Educação Empreendedora Paraná, Conte destaca que a ideia é divulgar histórias e iniciativas bem sucedidas da Educação Empreendedora. "Além de trazer para conhecimento das pessoas a aplicação do projeto, ele oportuniza aos professores compartilharem as suas experiências", destaca.
No caso do projeto aplicado na Escola Municipal Maestro Andreia Nuzzi, ela cita a iniciativa de pensar em formas diferentes de trabalhar com os pacientes hospitalizados. "Isso mostra que a criança pode pensar diferente e desenvolver o comportamento empreendedor, visando não só abrir empresas e gerar lucro, mas mudar a vida das pessoas de forma positiva", considera.
Para este ano, o JEPP englobará cerca de 95 alunos do período matutino, nas turmas de 4° e 5° ano da Escola Municipal Maestro Andreia Nuzzi, tendo a sustentabilidade como tema geral.


