Os olhos de Bernardo nadam, vermelhos, nas águas dos tucunarés, tilápias, bagres, lambarís assustados. A voz troca de boca, molenga. O cheiro forte de fumo e cachaça, acasalados, esparrama-se. ‘‘Esse negócio de terra tremer é aviso. Nessa terra coberta d’água, muito suor foi derrubado, muito sangue foi derramado, muito pai criou filho no cabo da enxada. Né assim de repente que a gente esquece...’’
‘‘Deu dó, né compadre?, porque esse terrão roxo era o melhor desse mundo de Deus. Era plantar e dar. Lembra do mar de soja que tinha ali pra baixo? O senhor não viu que muitas famílias carpiram fora depois das águas?’’
‘‘E o café? O senhor não lembra cada pé que enfrentava até geada braba?’’
‘‘Até a igreja da Vila Nova ficou embaixo d‘água. Ninguém respeita mais nada. E depois vem esses moço, os genhero da companhia, e fala que a terra não guenta o peso desta aguona toda e por isso treme tudo. Sei não. Pra mim, quem faz bem se paga com bem. E quem faz mal...’’
Os olhos passeiam: cicatrizes nas paredes da igreja, buracos nos muros do ginásio, cor desmaiada da tarde, cadeias que acompanham os guinchos da carroça no dia morno. Olhos de Primeiro de Maio, onde até a alma fica encardida pelo roxo vulcânico da terra. Olhos na placa desbotada do bar, ganindo ao vento. ‘‘Aquilo que a gente levanta com os calos das mãos, não há dinheiro que pague. Inda mais a mixaria que pagaram pelas terras...’’
‘‘Muita gente largou a casa chorando, sem querer nem receber o que os homens da companhia queriam pagar’’.
‘‘Mas escutei uns zuns-zuns que os graúdos, donos das fazendas lá da estrada, receberam uma bolada grande, que o governo espropriou e pagou os tubos de dinheiro pros tubarão’’.
‘‘Teve gente que não saía nem por muito dinheiro. Aquele alemão da barsa, que atravessa as condução, embirrou em não sair. Como é que o homem ia ficar em cima deste mundão d’água, meu Deus do céu?’’
‘‘Isso é aviso do céu. Meus olhos de 75 anos inda não tinham visto. Ninguém ouviu falar da história das Minas Gerais, onde a água, em vez de descer o morro, tá subindo? Diz que lá mataram muita gente boa, lavrador, trabalhador. Onde já se viu a água subir morro, Deus do céu?’’
‘‘Inda ontem, pensei que o mundo ia acabar com aqueles estoro. Hoje, muita gente não foi na missa com medo do sino despencar. Começou aquela tremedeira da terra... Lá em casa não ficou um caneco inteiro. A patroa tá com uma paúra daquelas. As crianças tudo calada.’’
Bernardo pede o canivete de Américo, enferrujado. Arranja um ‘‘paieiro’’, traga fundo e, baforando, engole as palavras. ‘‘Deus quemelivre, mas são os mortos desta terra, que viveram aqui, que sofreram aqui, que abriram tudo esse picadão, dando murro em ponta de faca, que tão fazendo esse barulhão todo. Acho que pra eles esse negócio de encher de água aquilo que eles suaram pra arrumar, pra semear, é fazer o mal, Deus quemelivre! E mal com mal se paga, Deus quemelivre!!!’’
A represa encardida, com sua pança líquida, sepulta. No boteco, o resto da conversa é afogado de um gole.

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