Primeiro concerto do Ciclo Chopin acontece domingo
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quinta-feira, 04 de novembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 05 (AE) - A controvérsia sobre a data de nascimento do compositor polonês Frédéric Chopin continua. Já a data da morte, em 17 de outubro de 1849, ninguém contesta. E, para lembrar os 150 anos de seu desaparecimento, a Fundação Maria Luísa e Oscar Americano promove domingo, às 16 horas, com patrocínio do Banco Mercantil Finasa, o primeiro concerto do ciclo dedicado ao músico, reunindo o violoncelista de origem polonesa Zygmunt Kubala e a pianista chinesa Alice Huang. No programa estão a "Sonata Opus 65 em Sol Menor", o "Grande Duo Concertante sobre o Tema da àpera de Meyerbeer", Robert Le Diable, e a "Polonaise Brilhante Opus 3".
Serão três concertos até o fim do mês. No dia 21, o pianista Giulio Draghi toca a integral dos "Estudos Opus 10 e 25". No dia 28, o pianista Fernando Lopes interpreta as "4 Baladas" e a "Sonata Opus 35". O ciclo integra a temporada dos "Concertos Banco Mercantil Finasa", que promove, até o fim deste ano, mais cinco concertos. Foram 14 nesta temporada, reunindo 72 artistas desde março, numa série coordenada pelo pianista Gilberto Tinetti. Zygmunt Kubala, radicado no Brasil desde 1967, convive com a música do compositor polonês desde criança. "Ficava impressionado quando ouvia as primeiras notas da "Polonaise em Lá Maior", que era prefixo da Rádio de Varsóvia", lembra o violoncelista.
Kubala, aos 56 anos, observa que a música de Chopin, para ele, sempre esteve associada à recusa do autoritarismo. "Em minha juventude, ela trazia vestígios do passado contra a ditadura". Apesar disso, as mais recentes biografias de Chopin, entre elas a do jornalista Tad Szulc, "Chopin in Paris", lançada no ano passado, mostram um Chopin bem diferente do nacionalista que compôs um estudo revolucionário quando o levante polonês fracassou em 1831. Segundo Szulc, Chopin era um patriota de salão, que se mantece à margem da política e da situação de seu país.
Kubala, ao contrário de Szulc, acha que o fato de Chopin não ser chauvinista não o desautoriza como patriota, salientando "a presença de um sentimento forte de dignidade e consciência nacionalista" que o manteve ligado à Polônia mesmo a distância. Violoncelista, Kubala diz ser grato a Chopin por ter escolhido seu instrumento como segunda opção ao escrever música de câmara. Ele lembra a amizade de Chopin com o violoncelista Franchomme, selada não apenas pelo amor comum à ópera, mas pela colaboração mútua.
"O Duo Concertante sobre o tema da ópera de Meyerbeer
Robert Le Diable, foi escrito pelos dois", observa, acrescentando que essa parceria teria sido mais produtiva se Chopin não procurasse se adaptar ao gosto da burguesia francesa, facilmente impressionável pelo virtuosismo dos pianistas. A "Sonata Opus 65 em Sol Menor", que também integra o concerto de domingo, é classificada por Kubala como a virtual candidata à obra "mais ousada e corajosa do compositor, prenunciando novas tendências quanto à linguagem harmônica e surpreendentes mudanças tonais".
O caráter antecipatório dessa sonata contrasta com a correção do duo concertante. "É uma obra típica dos salões parisienses, mas eu me pergunto por que razão tudo tem de ser sério", observa o violoncelista. Certamente Chopin ouviu na ópera de Meyrbeer algo que não teria coragem de assumir. É conveniente lembrar que, ignorando os inúmeros pedidos de seus compatriotas, Chopin se recusou a compor uma ópera nacionalista. Apesar de ser um apaixonado pela ópera italiana, preferiu fazer o piano cantar a entregar algumas de suas notas a cantores líricos (a despeito das numerosas canções). As más línguas dizem que ele não teria mesmo tempo para compor óperas, preferindo ficar na companhia de banqueiros como os Rothschilds, que lhe garantiam outras notas. Kubala sabe o que isso significa. Até hoje muitos não o perdoam por ter faturado um bom dinheiro na loteria esportiva, que lhe garantiu sua "incômoda" independência. O violoncelista deu as costas para eles e nunca alimentou preconceitos musicais. Foi um dos fundadores da Jazz Sinfônica depois de passar pela Sinfônica Brasileira e, hoje, se dedica ao garimpo de boas peças de contemporâneos, que têm escrito com maior frequência para ele.
Ciro Pereira e Villani Cortes são dois desses autores. Ronaldo Miranda e Guerra Vicente estão na lista para um futuro disco, depois do sucesso de "Estados dAlma", último CD com músicas brasileiras para violoncelo e piano, gravado há dois anos e esgotado. Antes, porém, ele quer gravar seu compatriota Chopin. Nada mais justo. Serviço - Zygmunt Kubala e Alice Huang. Homenagem aos 150 anos de morte de Chopin. Domingo, às 16 horas. R$ 5,00. Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Avenida Morumbi, 3.700, tel. 3742-0077


