Sequestro, desaparecimento de crianças e outras práticas criminosas contra menores não são assuntos fáceis de se lidar com o público infantil, mas inevitavelmente são necessários na realidade atual. E de forma lúdica e cuidadosa, a Escola Alfa, de Londrina, há dez anos vem aplicando o Projeto João Esperto em que durante dois meses os alunos de 4 a 6 anos participam de uma série de atividades que abordam a segurança pessoal e o trânsito.
''Tomamos cuidado na forma que abordamos esses assuntos para as crianças não ficarem assustadas, mas acreditamos que é importante orientá-las desde cedo sobre essas questões para que aprendam a ter um comportamento correto, que saibam se defender'', salienta Roberta Poliana Acosta Bueno, coordenadora da Educação Infantil.
Como material de apoio, a instituição utiliza uma espécie de cartilha publicada e distribuída gratuitamente pelo Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride), que é uma delegacia de polícia especializada na investigação do desaparecimento de crianças de zero a 12 anos incompletos em todo o estado do Paraná.
Neste ano, o material foi ampliado e o João Esperto - personagem principal - ganhou mais três amigos no combate ao crime: Bia Sabida, Kara Atento e Zé Prudente. É a Turminha da Segurança que em quatro historinhas divertidas e diversos passatempos ensinam como agir em situações de perigo.
Não aceitar caronas, doces e presentes de estranhos estão entre as orientações, assim como não andar sozinho na rua. Há também o enfoque de cuidados com o próprio corpo, em que as crianças são orientadas a não deixarem que alguém tire as suas roupas e as toquem mesmo que seja um parente ou um amigo. E, caso aconteça alguma coisa, o pedido é que contem tudo para sua professora ou outro adulto da sua confiança.
A mensagem sobre segurança também foi reforçada pelo sargento Valdeir Sampaio, que realizou um palestra na escola com o auxílio do seu boneco ventríloquo Dudu e o seu violão. Com música e bom humor, ele destaca a importância das crianças serem prudentes e ficarem sempre perto dos pais em locais aglomerados. Aliás, o seu personagem Dudu é baseado em uma fato verídico de uma criança que se perde dos pais em um shopping.
''É muito importante que a escola trate desses assuntos com sensibilidade desde cedo com as crianças. O objetivo não é criar uma cultura fóbica aos estranhos, mas instrumentalizar os pequenos para a defesa pessoal, pois eles são muito vulneráveis'', avalia.
Já na aula da professora Gláucia Angelita de Carvalho Werpachowski, os alunos do nível 4 prestam bastante atenção enquanto a história ''Cuidado no Caminho de Volta'' é projetada na parede. Com o nome dos personagens na ponta da língua, os pequenos estudantes vão aprendendo um pouco mais sobre os cuidados que devem tomar.
Na sala de aula da professora Suellen Hermenegildo Katayama, a discussão gira em torno da importância da carteira de identidade e imprimir a própria impressão digital em folhas em branco vira uma grande diversão para os alunos do nível 5. E como bem definiu um deles, ''digitais são umas linhas bem bagunçadas que ninguém tem igual''.
Sentados em roda, outra turma de nível 4 interage com a professora Stéphanie Verpa Brovco, enquanto ela conta de forma descontraída uma das histórias da Turminha da Segurança. ''Procuramos fazer esse trabalho da forma mais lúdica possível e dá para perceber que eles conseguem compreender a mensagem mesmo sendo tão pequenos. Eles prestam muita atenção no que falamos e gravam bem. Queremos que eles saibam se defender e consigam identificar o perigo'', afirma.
A turma do primeiro ano, do ensino fundamental 1, da professora Kyamani Moreno de Sousa, preparou uma apresentação sobre dicas de segurança para os alunos do quarto ano. Com alguns alunos caracterizados de bombeiro, a ação foi a oportunidade dos alunos maiores partilharem histórias pessoais de desaparecimento em locais movimentados onde eles mesmos foram os protagonistas, mas com final feliz.
Vale salientar que desde a instalação do Sicride, em 1995, até o ano de 2005, foi registrado o desaparecimento de 817 crianças. Atualmente, o órgão possui um total de 21 casos de desaparecimento de crianças que estão sendo investigados.

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