Preto é a cor mais quente
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terça-feira, 09 de janeiro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha 2 

A grande dúvida da noite dos Globos de Ouro era saber se a festa, conhecida por seu glamour e por ser a mais divertida da temporada de prêmios, poderia equilibrar seu espírito de descontração com os ventos de protesto e mudanças pré anunciados, gerados pelas revelações de abusos sexuais em Hollywood. Se a vocação destes prêmios é a de agrupar a maior quantidade possível de personalidades artísticas por metro quadrado e louvá-los por aquilo que são, a questão era como fazer isto justamente na ocasião em que grande parte dos festejados queria falar de outra coisa, ceder o primeiro plano a uma causa que importava bem mais que qualquer outra que já haviam representado antes. Como encontrar e fundir a justa medida entre a divulgação e premiação de filmes e séries televisivas e o dramático muito mais que qualquer ficção movimento social que está mudando a indústria que os produz.
As mulheres assumiram com valentia e confiança esse momento histórico. Foi a coroação da luta contra a violência de gênero em Hollywood estendida para outras indústrias além do audiovisual , materializada durante toda a gala no palco do Hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, domingo (7)à noite. A 75ª edição do Globo de Ouro, prêmio anual da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood, foi um desfile não mais de modelos coloridos de grandes estilistas mas marcou a uniformidade do preto como a cor que um amplo grupo de manifestantes escolheu para acentuar o luto dos discursos carregados de manifestações feministas.

Reconhecimento
A cruzada das atrizes foi reconhecida na premiação, como já era esperado. As grandes ganhadoras da jornada televisiva foram "Big Little Lies" e The Handmaids Tale". A melhor atriz dramática pela minissérie "The Handmaids Tale" foi Elisabeth Moss. "Já não somos a história à margem, nós somos a história, escrevemos a história", disse ela ao receber sua estatueta. Já "Little Big Lies" é a história de três amigas que se unem para dar um basta aos abusos a que são submetidas. Nicole Kidman, melhor atriz, aproveitou muito bem a ocasião : "Este meu personagem representa algo que é o centro desta conversa que acontece agora mesmo: o abuso. Creio e espero que vamos gerar transformações através destas histórias".
Outro dos discursos emocionados da noite foi o da atriz e histórica animadora da tevê dos Estados Unidos, Oprah Winfrey, homenageada por sua trajetória com o prêmio Cecil B. DeMille . "Somos celebrados pela história que contamos e este ano nos convertemos em história. (...) Durante muito tempo, as mulheres não foram ouvidas, ou não se acreditava nelas se ousassem contar a verdade sobre determinados homens. Mas este tempo terminou. (...) Quero que todas as meninas que estão nos assistindo saibam que há um novo dia no horizonte.

Barbra Streisand, até agora a única mulher a ganhar o Globo de Ouro de melhor direção ("Yentl", 1983), anunciou o vencedor da categoria de melhor drama: "Três Anúncios para Um Crime". Antes, porém , engrossou o coro e deu seu recado: "Estou orgulhosa de que nossa indústria, confrontada com incomodas verdades, tenha prometido mudar a maneira como fazemos esse negócio. A verdade é poderosa".
Melhor atriz pelo mesmo filme, Frances McDormand como sempre fez do humor cáustico sua melhor arma: "Não posso arremessar uma bola de beisebol, mas consigo lançar um coquetel molotov de um prédio a outro através de uma rua de pista dupla".

E após reconhecer o talento das outras atrizes que competiam na sua categoria, Frances fulminou a eterna falta de melhores oportunidades para mulheres trabalhadoras em Hollywood: "Podem acreditar em mim, nós mulheres que estamos nesta sala hoje à noite não viemos pela comida. Estamos aqui pelo trabalho."
Fazendo um rápido mapeamento das tantas figuras femininas vistas e ouvidas durante a cerimônia, restam duas direções. Por um lado elas marcaram posição e o ritmo de muitas das ficções mais elogiadas da temporada, através de relatos de liberação, reivindicação ou sofrimento, ocupando majoritariamente um espaço não marginal. São reais, capazes tanto de heroísmos como de completos desastres. Mas afinal demonstrando que são tridimensionais.
Mas a manifestação do atual estado de reação presente em Hollywood, que se expande para todos os lados, parece mais intermitente que contínuo. Ao final da noite, ficaram novas perguntas para as próximas galas. Se as mulheres assumiram o lugar neste momento histórico, os homens presentes continuaram paisagem. E a Associação dos Jornalistas Estrangeiros de Hollywood, responsável pelos prêmios, fez o habitual: distribuiu o mais uniformemente possível as estatuetas, para que ninguém fosse para casa sem uma. Exceto Spielberg, de mãos completamente vazias. Mas essa é uma outra história...


