A modéstia nunca foi o forte de Marcos Mion. Aos 22 anos, o apresentador da Band utiliza adjetivos bastante pretensiosos, como ‘‘revolucionário’’ e ‘‘inovador’’, para definir o próprio programa, ‘‘Descontrole’’. Os números do Ibope, porém, não atestam a euforia do rapaz. Desde que estreou, no dia 18 de fevereiro, a média do programa não passou de três pontos na audiência. ‘‘Gosto de causar polêmica, mas nunca vou mostrar mulher pelada ou briga no programa’’, ressalva.
Mas a audiência do ‘‘Descontrole’’ só alcançou picos de 10 pontos quando Mion simulou uma briga com um rapaz encapuzado, que ameaçava tirar a própria vida. A ‘‘mise-en-scSne’’ durou uns 20 minutos e incluiu apelos desesperados de Mion, como ‘‘Calma, velho, não vá fazer bobagem!’’ ou ‘‘Olha, papito, vamos conversar um pouco!’’. ‘‘Quis fazer uma crítica ao público que assiste a espetáculos de humilhação na tevê. Programas assim só existem porque as pessoas vêem’’, frisa.
Criticar o veículo em que trabalha é apenas uma das estratégias de Marcos Mion na Band. As outras, igualmente pretensiosas, são ‘‘incentivar a cidadania entre os jovens’’ e ‘‘quebrar a rotina televisiva’’. Para tanto, ele lança mão de artifícios pouco convencionais, como promover uma prova de arremesso de anões ou mergulhar em fontes e chafarizes públicos. ‘‘Quero surpreender o público. Tirá-lo da rotina. Ninguém pode me acusar de tratar o público como burro’’, acredita.
O ‘‘Descontrole’’ tem recebido mais críticas do que elogios. Como você lida com o aparente insucesso do programa?
Não faço meu trabalho para agradar a todo mundo. Isso, aliás, seria impossível. Quando comecei a fazer o ‘‘Piores Clipes’’, ninguém entendeu nada. As pessoas diziam: ‘‘Quem esse moleque pensa que é para falar mal de todo mundo?’’. Demorou para o pessoal ‘‘sacar’’ o espírito do programa. Com o ‘‘Descontrole’’, acontece a mesma coisa. Seria mais fácil fazer um programa só de papo-cabeça ou, quem sabe, de ‘‘besteirol’’. Mas quero fazer um programa diferente a cada dia. E o que é melhor: um programa diferente dos que existem por aí.
Quais foram os maiores erros e acertos do ‘‘Descontrole’’?
Gosto de fazer crítica. Às vezes erro a mão, mas estou tentando melhorar. As pessoas acham que é demagogia minha, mas eu me preocupo com cidadania. Sempre quis fazer um quadro de prestação de serviços como o ‘‘Guerrilhas Urbanas’’. A idéia é denunciar as condições precárias de lugares como o bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, por exemplo. Estou apostando muito neste quadro. Não sou o Chico Pinheiro, do ‘‘SP TV’’, da Globo, mas essa é a minha chance de prestar serviços para a comunidade.
A média do ‘‘Descontrole’’ não passa de três pontos. Você pretende fazer alterações no formato?
Estou colocando no ar o programa do jeito que sonhei e torço para ele dar certo. Se não der, aí vou pensar no assunto. Sou um cara muito chato e estressado. Estou trabalhando muito e me cobro à beça. Se algo der errado, não vou me perdoar nunca. Mas sei que o ‘‘Descontrole’’ nunca vai mostrar briga nem mulher pelada. Isso eu não vou mostrar nunca.
Você não teme que a Band faça com você o mesmo que a Globo fez com o Cazé?
Cada caso é um caso. Não dá para generalizar. O Cazé é um dos caras mais talentosos da tevê. Adorava o programa ‘‘Sociedade Anônima’’, mas não sei o que aconteceu. Acho que a não-adaptação do Cazé foi mais um erro de estratégia da Globo do que outra coisa. A emissora não soube aproveitar o talento do Cazé.
Você não se arrepende de ter trocado a MTV pela Band?
De maneira nenhuma. Tenho desafios maiores pela frente. Adorava o ‘‘Piores Clipes’’ e o ‘‘Uá Uᒒ, mas essa fase já passou. O ‘‘Descontrole’’ é um antigo projeto meu e recebi a maior força da Band para executá-lo. Isso me motivou à beça. Quando saí da MTV, a única coisa que exigi foi fazer algo em que acreditasse. Sei que é difícil apostar no meu humor abusado e provocativo. Mas estou dando o melhor de mim.

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