Pretensão sem limites
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terça-feira, 16 de abril de 2002
André Bernardo TV Press 
A modéstia nunca foi o forte de Marcos Mion. Aos 22 anos, o apresentador da Band utiliza adjetivos bastante pretensiosos, como revolucionário e inovador, para definir o próprio programa, Descontrole. Os números do Ibope, porém, não atestam a euforia do rapaz. Desde que estreou, no dia 18 de fevereiro, a média do programa não passou de três pontos na audiência. Gosto de causar polêmica, mas nunca vou mostrar mulher pelada ou briga no programa, ressalva.
Mas a audiência do Descontrole só alcançou picos de 10 pontos quando Mion simulou uma briga com um rapaz encapuzado, que ameaçava tirar a própria vida. A mise-en-scSne durou uns 20 minutos e incluiu apelos desesperados de Mion, como Calma, velho, não vá fazer bobagem! ou Olha, papito, vamos conversar um pouco!. Quis fazer uma crítica ao público que assiste a espetáculos de humilhação na tevê. Programas assim só existem porque as pessoas vêem, frisa.
Criticar o veículo em que trabalha é apenas uma das estratégias de Marcos Mion na Band. As outras, igualmente pretensiosas, são incentivar a cidadania entre os jovens e quebrar a rotina televisiva. Para tanto, ele lança mão de artifícios pouco convencionais, como promover uma prova de arremesso de anões ou mergulhar em fontes e chafarizes públicos. Quero surpreender o público. Tirá-lo da rotina. Ninguém pode me acusar de tratar o público como burro, acredita.
O Descontrole tem recebido mais críticas do que elogios. Como você lida com o aparente insucesso do programa?
Não faço meu trabalho para agradar a todo mundo. Isso, aliás, seria impossível. Quando comecei a fazer o Piores Clipes, ninguém entendeu nada. As pessoas diziam: Quem esse moleque pensa que é para falar mal de todo mundo?. Demorou para o pessoal sacar o espírito do programa. Com o Descontrole, acontece a mesma coisa. Seria mais fácil fazer um programa só de papo-cabeça ou, quem sabe, de besteirol. Mas quero fazer um programa diferente a cada dia. E o que é melhor: um programa diferente dos que existem por aí.
Quais foram os maiores erros e acertos do Descontrole?
Gosto de fazer crítica. Às vezes erro a mão, mas estou tentando melhorar. As pessoas acham que é demagogia minha, mas eu me preocupo com cidadania. Sempre quis fazer um quadro de prestação de serviços como o Guerrilhas Urbanas. A idéia é denunciar as condições precárias de lugares como o bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, por exemplo. Estou apostando muito neste quadro. Não sou o Chico Pinheiro, do SP TV, da Globo, mas essa é a minha chance de prestar serviços para a comunidade.
A média do Descontrole não passa de três pontos. Você pretende fazer alterações no formato?
Estou colocando no ar o programa do jeito que sonhei e torço para ele dar certo. Se não der, aí vou pensar no assunto. Sou um cara muito chato e estressado. Estou trabalhando muito e me cobro à beça. Se algo der errado, não vou me perdoar nunca. Mas sei que o Descontrole nunca vai mostrar briga nem mulher pelada. Isso eu não vou mostrar nunca.
Você não teme que a Band faça com você o mesmo que a Globo fez com o Cazé?
Cada caso é um caso. Não dá para generalizar. O Cazé é um dos caras mais talentosos da tevê. Adorava o programa Sociedade Anônima, mas não sei o que aconteceu. Acho que a não-adaptação do Cazé foi mais um erro de estratégia da Globo do que outra coisa. A emissora não soube aproveitar o talento do Cazé.
Você não se arrepende de ter trocado a MTV pela Band?
De maneira nenhuma. Tenho desafios maiores pela frente. Adorava o Piores Clipes e o Uá Uá, mas essa fase já passou. O Descontrole é um antigo projeto meu e recebi a maior força da Band para executá-lo. Isso me motivou à beça. Quando saí da MTV, a única coisa que exigi foi fazer algo em que acreditasse. Sei que é difícil apostar no meu humor abusado e provocativo. Mas estou dando o melhor de mim.


