Desde que li uma entrevista da cantora Preta Gil para a revista Trip, em 2003, durante a divulgação de seu disco de estreia, Prêt-à-Porter, entendi que nada na vida daquela mulher poderia ser comum. Aos 29 anos, Preta já avisava ao mundo: seu caminho não seria o da “normalidade”. E, de fato, nunca foi.

Preta Gil nos deixou no último domingo (20), aos 50 anos, em Nova Iorque. Uma despedida longe do Brasil, mas não distante daquilo que ela sempre representou: alegria, força e brasilidade. Sócia fundadora da maior agência de influenciadores do país, atriz, apresentadora, cantora e referência para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, Preta foi muito mais do que filha de Gilberto Gil e mãe de Francisco. Foi um corpo político em movimento.

É verdade: ela não precisava ter se assumido bissexual nos anos 2000. Nem precisava estar no Congresso, em 2011, defendendo o direito ao casamento igualitário. Também não era obrigação sua fazer filantropia ou estender a mão a pessoas em situação de vulnerabilidade. Mas não conseguiu se furtar a nada disso. Porque viver, para Preta, sempre foi também um ato de responsabilidade coletiva.

Ela nos ensinou a olhar para nós mesmos com mais generosidade. Fez do seu corpo um palco de afirmações. Trouxe à tona discussões sobre autoestima, liberdade sexual, representatividade e, mais recentemente, sobre o câncer colorretal, doença que enfrentou com coragem e expôs com sensibilidade, transformando dor em consciência coletiva.

Por pouco, seu nome quase não foi Preta. Preta Maria foi possível porque um tabelião só aceitou registrá-la assim se tivesse um “nome católico”. A menina que foi ridicularizada na escola por pronunciar o alfabeto de forma diferente, que adiou por uma década sua estreia musical após a perda do irmão Pedro, que foi alvo de ataques, gordofobia e misoginia em rede nacional, cresceu. Ocupou todos os espaços que lhe foram negados e ainda abriu caminho para que outros também ocupassem.

Preta sempre foi rodeada de amor: por amigos, pela família, pelos fãs. E também sempre amou com a intensidade de quem ama a vida. Talvez por isso siga tão presente mesmo após a morte. Como quem apenas muda de frequência, sua energia continua, reverberando em tantas vidas que tocou. Como disse seu pai, Gilberto Gil, ao se despedir da filha: “Que agora venham os 50 bilhões de anos…”

Costumamos dizer que o brasileiro tem memória curta. Mas diante das inúmeras homenagens, é impossível não pensar: será que agora entenderam quem ela era? O mesmo país que um dia a rejeitou por ser “diferente”, hoje reconhece sua grandiosidade. Preta virou lenda e seguirá viva em muitas outras vozes, corpos e coragens que ela ajudou a libertar.

Sim, difícil não é só ser Preta nem ser Gil. Extraordinário é ter sido a Preta Gil. E ter transformado em potência tudo aquilo que tantos, mesmo inconscientemente, tentaram silenciar.

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