São Paulo, 16 (AE) - Na hora de fechar seu novo contrato com a gravadora Universal, Zeca Pagodinho, uma das maiores estrelas da casa, fez uma exigência: "Só assino se vocês se comprometerem a gravar o Almir Guineto". Quem sabe conta: uma cláusula contratual, idéia de Zeca, garantiu a ida de Guineto para a Universal (ex-Polygram) e a volta à cena de um dos maiores nomes do samba, do qual ultimamente não se vinha tendo notícias. Mais um fato para alimentar o apelido de Zeca de Anjo da Guarda do Samba.
Há três anos sem gravar e há muito mais tempo do que isso com os discos fora de catálogo, Guineto foi, desde o início da carreira, contratado da gravadora RGE, que já abrigou sambistas do quilate do próprio Zeca Pagodinho e de Jovelina Pérola Negra. A Universal atendeu ao pedido de Zeca e o disco novo de Almir, ainda não batizado, está quase pronto. Deve chegar às lojas dentro de um mês.
Terá 14 músicas, 7 inéditas e 7 regravações - de grandes sucessos, como "Jibóia" ("Depois que mataram a jibóia/ Jararaca deita e rola"), de Vilani Silva e Bom Bril, e "Caxambu" ("Dona Celestina, me dá água pra beber/ Se você não me der água/ Vou falar mal de você"), de Jorge Neguinho, Zé Lobo, Bidubi do Tuiti e Hélcio do Pagode. Além de outras, de autoria do cantor. De fora, já se sabe, ficará a provocativa "Meu Sangue É Brasil", de Almir e seu mais frequente parceiro, Luvercy Ernesto. Música que fala de corrupção no governo e desigualdade social, não foi aprovada pelos executivos da gravadora.
Mas Beth Carvalho, sempre atenta, já capturou a faixa para o seu próximo disco ao vivo. Que talvez receba exatamente o nome do samba de Almir. O gari aposentado da prefeitura do Rio foi apelidado, na década de 80, de Furacão Negro. Almir Guineto já experimentou as glórias e desgraças do sucesso. Ficou apenas um ano na profissão de varredor de ruas. "Tive de me aposentar por causa de uma paralisia no braço", conta.
Virou Furacão Negro por causa da energia que tinha para enfrentar os mais de 60 shows que fazia por mês. O sucesso durou dez anos, desde o estouro, em 1980, com o primeiro disco-solo, "O Suburbano", até a saída da grande cena industrial, no começo dos anos 90. Uma época de que lembra com calafrios. "O sucesso é bom, mas é horrível", declara, um tanto contraditoriamente, mas fazendo-se entender. "Adoeci de tanto trabalhar, tinha de aparecer em programas da Globo toda semana"
relembra. "Era uma escravidão", continua. "A gravadora tinha outros artistas, mas não punham o Zeca, nem a Jovelina nos programas, só eu".
Em 1987, de tão popular, Almir chegou ao cinema, fazendo a trilha sonora e um dos papéis principais no longa-metragem "Natal da Portela", de Paulo Sérgio Saraceni. Viveu Paulo da Portela, compositor notável da história do samba e primo de Natal da Portela, igualmente notável bicheiro e fundador da escola de samba. Natal foi vivido pelo ator Milton Gonçalves. Da experiência cinematográfica, o bem-humorado e gozador Almir Guineto também não guarda boas lembranças. "Eu estava muito doente, praticamente me arrastando durante as filmagens", recorda.
"No fim do filme, o Paulo da Portela morre e eu tinha medo de ir pelo mesmo caminho", continua. "Tanto é que me recusei a fazer a cena do velório, pois não ia entrar num caixão de jeito nenhum!" Apesar de ser sambista de berço, nascido no Morro do Salgueiro, Guineto só se tornou conhecido do grande público ao lado dos amigos do grupo Fundo de Quintal, nos anos 70. Futebol e samba - O Fundo de Quintal apareceu no início daquela década, juntando uma turma de compositores do bloco carnavalesco Cacique de Ramos. Eles se reuniam uma vez por semana para jogar futebol, depois tomar cerveja, dar risada, cantar samba, enfim, coisas de que gente de alma leve costuma gostar.
Em tais reuniões, esgotadas as energias do corre-corre atrás da bola, os despretensiosos futebolistas pegavam os instrumentos e, no improviso, apresentavam composições. Levando o samba estavam Bira e Ubirany (irmãos e fundadores do Cacique), Guineto (que já havia participado do grupo Originais do Samba), Jorge Aragão, Delcir e Sereno. Logo a boa fama daquelas reuniões se espalhou.
A cantora Beth Carvalho, já famosa, foi levada por um amigo para conhecer as festanças. Começou a pescar as músicas boas que estavam ali, à espera de alguém que as gravasse. Beth transformou as composições em sucesso - como "Coisinha do Pai"
de Guineto, Luiz Carlos da Vila e Jorge Aragão, que, há dois anos, chegou a acordar robô em Marte - e tornou-se a madrinha dos novos músicos. Vale notar: entre os mais novos estava um rapaz magrinho que, alguns anos mais tarde, se tornaria Zeca Pagodinho. Cordas de aço - Além das músicas boas, o samba que sacudia as reuniões improvisadas nos fundos de quintais trazia inovações. Ou, melhor dizendo, revitalizações. Pelas mãos de Almir Guineto, o banjo apareceu novamente nas rodas de samba. O instrumento havia caído em desuso, embora houvesse sido importante nos "Oito Batutas", de Pixinguinha. Conta Almir: "Nós não usávamos microfone e, para o cavaquinho ser ouvido ao lado da percussão, era preciso forçar muito as cordas".
Depois de arrebentar muitas cordas, ele percebeu que o banjo ficava mais audível. Numa entrevista para a revista "Afinal", em abril de 1987, Almir Guineto, chamado de Rei do Samba, depois de vender 660 mil cópias de discos e fitas cassete
deu sua opinião sobre o futuro do pagode, febre da época. "Vai ser rico, gostoso e com muito axé", disse.
Naqueles tempos, Guineto era morador de uma luxuosa cobertura em Copacabana, no Rio. Enfrentava a maratona de 60 shows por mês, mais aparições em programas da televisão. Tinha discos lançados no Japão, onde aparecia em revistas e acumulava fãs. Chegou a cantar em Nova York. Falso pagode - Todo prosa com o sucesso, o Rei do Samba, rei da vendagem de discos, nem poderia imaginar que seria substituído por uma turma de jovens sambistas não tão autênticos, erradamente chamados de pagodeiros, com seus shows cheios de coreografias e figurino pausterizado.
Pior, a nova moda manteria em segundo plano, por muito tempo, tanto ele, quanto Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra (que morreu sem voltar a brilhar) e nomes importantes do samba. Ironicamente, um sucesso de Guineto, a bem-humorada "Só pra Contrariar" ("Só pra contrariar/ Eu desfilei na Portela, olha aí"), daria nome a um dos grandes exponentes da onda neopagodeira.
Feliz com a nova vida em São Paulo - novo apartamento no Centro, com certeza mais modesto do que a cobertura em Copacabana, nova mulher, Cristina, com quem está casado há um ano e meio, novo disco - e participando de rodas de samba por aqui mesmo, Guineto parece alheio às discussões em torno do pagode. "Me dou com todos eles", diz, referindo-se aos neo-sambistas. "São bons, sérios e competentes", continua. "Samba paulista?", pergunta, para em seguida responder: "É tudo samba brasileiro".

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