O caos dançante da realidade, tão bem retratado pela mente genial de Friedrich Nietzsche, tem sido o mote de muitas películas nesta virada de milênio. ‘‘Beatiful People’’ de Jasmin Dizdar, ‘‘Corra, Lola, Corra’’ de Tom Tykwer e o primoroso ‘‘Magnólia’’ de Paul Thomas Anderson são algumas das películas que buscam, ao se utilizarem de uma montagem alucinada, retratar o constante fluxo que dá ordem ao cotidiano. Fenômeno de época ou não, a temática temporal é a grande angústia de uma humanidade que sofre ao lembrar a máxima do grande Machado de Assis: ‘‘Enquanto a gente mata o tempo, o tempo mata a gente’’.
O curta-metragem ficcional ‘‘Pressa’’, dirigido por dois londrinenses estreantes, Fernando Henares e Guilherme Peraro, versa sobre o mesmo tema: o tempo. Produzido com modestíssimos R$ 100,00, e distribuído pela rede mundial de computadores (www.pressa.cjb.nel - site oficial do filme - e www.cafeconnectionline. com.br), ‘‘Pressa’’ tem sua melhor definição em quatro vocábulos - um exercício de linguagem.
O roteiro, de autoria dos diretores, é simples: um jovem arquiteto se lembra de um projeto a ser entregue no dia seguinte. Interrompe seu descanso, e se entrega ao ofício. Até aí, tudo em movimentos paulatinos, sob a voz saborosa de Bebel Gilberto (a trilha foi organizada por André Luis Gonçalves de Oliveira). Ao despertar no outro dia, se depara com o adiantado da hora e parte para o encontro. Surge o ritmo alucinado tão próprio aos nossos dias e o filme atinge o seu ponto máximo. A mise-en-scSne se apropria de movimentos de câmera que, embalados pela batida forte de Chico Science, transmite a absoluta submissão ao tempo característica do homem contemporâneo.
O desfecho surpreende o espectador, mas não mantém o impacto alcançado no início da trama. Prejudicado por problemas técnicos, o diálogo final (único do filme) não é bem compreendido, o que fortalece a idéia ainda implícita de que os filmes produzidos unicamente para a web não devem se valer de diálogos. Como os filmes são exibidos em todo o mundo, os cineastas inconscientemente voltam a contar unicamente com imagens para contar uma história, ou seja, a matéria-prima da sétima arte.
O sábio portenho Jorge Luis Borges costumava dizer que o tempo é a substância da qual somos feitos. Em ‘‘Pressa’’, idéia similar é evidenciada, já que a personagem de Éverson Duarte foi elaborada a partir de sua relação com o tempo. Mas a pretensão de Henares e Peraro não é a de aprofundar esta temática, e sim, de contar bem uma história por meio de imagens. Estabelecida a pretensão, o resultado não é desfavorável. ‘‘Pressa’’ é um primeiro passo, a primeira montagem, que, se não se firma como uma narrativa primorosa, revela ao menos uma capacidade de exercitar o que os cânones do gênero cinematográfico já ensinaram, vide Serguei Eisenstein.

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