Há alguns anos, Mike Tyson, campeão mundial dos pesados, foi preso e condenado. A acusação: estupro. Amargou um tempo de cadeia. Na penitenciária, ninguém sabe como foi.
Quem assistir a este ''O Imbatível'', em exibição em Londrina (confira a programação de cinema na página 2) também não vai saber como as coisas se passaram para ele entre quatro grades. Mas pode viajar com o tempero ficcional proposto pelo diretor Walter Hill, que buscou elementos da realidade para injetar na sua trama penitenciária. ''Undisputed'' não traz nenhuma novidade a um gênero saciado, mas pelo menos é honesto naquilo que promete aos aficcionados: momentos de ação trepidante, boxe de qualidade para quem gosta e um background social verossímil.
Iceman, aliás James Chambers (Ving Rhames, cotado para ser a versão negra do detetive Kojak), é condenado a quarto anos por crime de estupro. Vai para a prisão de segurança máxima de Sweetwater, onde são famosos os torneios internos de boxe. O campeão do momento é Monroe Hutchen (Wesley Snipes). Óbvio, entre os dois nasce de cara uma tensão insuportável. Chambers deve afirmar a hegemonia a qualquer custo; Monroe já é um tipo pacífico fora do ringue, gosta de pequenos trabalhos manuais. Entre os dois se mete um velho mafioso, Ripstein (Peter Falk), que teve seus dias de glória como negociante na velha Cuba de Fulgêncio Batista e agora ainda mantém ''contatos'' com gente do governo. Perito em boxe e em apostas, prepara o campo para uma disputa entre os dois campeões. Oferece à dupla uma boa soma, promete a Iceman a redução da pena graças a ligações obscuras e a Monroe uma gorda porcentagem em caso de vitória. Agora é só armar o ringue, recolher o dinheiro das apostas e aguardar o grande dia.
No início da carreira, anos 1970, o diretor Walter Hill impressionou o público e sensibilizou a crítica com o ritmo e o vigor de sequências de violência que chegaram a caracterizar uma nova estética nos filmes de ação espetacular. Mais obscuro, mais rude e portanto mais próximo do público,
tomava uma paisagem urbana de bairros de periferia para buscar ali uma linguagem tosca, vibrante e impiedosa, potencializada através de uma câmera rápida e enfática, com luz explodindo em contrastes. Como se observa, uma espécie de precursor do muito que se veria, em escala piorada, no cinema americano do final do século, alguém com talento suficiente e a necessária personalidade para encontrar um lugar de destaque em Hollywood. Seus primeiros títulos - ''Lutador de Rua'', ''Caçada de Morte'', ''Os Selvagens'' e ''Cavalgada de Proscritos'' - podiam ter proporções modestas mas eram de qualidade acima de suspeita.
Embora distante daquele realismo cru de outrora e optando por uma certa estilização da narrativa, Hill conserva a honestidade e o empenho do início, há quase 30 anos. O tom adotado passa pela garantia da fórmula consagrada do filme de boxe, com a câmera no ringue dançando ao redor dos lutadores, ou pelas novidades surgidas ao longo do tempo, como a valorização do som introduzida por Martin Scorsese em ''Touro Indomável'': o impacto de cada golpe lembra o barulho de uma melancia de encontro ao solo, arremessada de um décimo andar.
Há uma vantagem adicional. Em lugar de contar uma trama anódina, o também roteirista Walter Hill preferiu preencher a contagem regressiva até o combate final com o preciso recorte psicológico e moral dos personagens encarcerados, sempre potencializados pela força física. O espectador pode até se frustrar com a encenação mais amena da luta derradeira, mas tudo o que antecede o desfecho no ringue é bem mais significativo e importante.