Preso na teia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de julho de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Como uma tentativa de injetar novo ânimo em uma das maiores franquias de super-herói de todos os tempos, o filme ''O Espetacular Homem-Aranha'' - que estreia oficialmente nesta sexta, no Multiplex Catuaí e nos Cines Lumiére - é a repaginação de uma das sagas cinematográficas que mais fizeram sucesso no cinema. Mais do que apenas uma questão mercadológica, a estratégia faz sentido, já que o ator Tobey Maguire ficou muito velho para subir paredes (desta vez, tridimensionais), e o personagem do Aranha é um integrante promissor na sequência do blockbuster ''Os Vingadores'' - por sinal, um dos melhores filmes baseados em quadrinhos.
Mesmo sendo vendido como uma nova 'versão' - com toda a liberdade criativa que isto implica - não espere novidades na história central do filme. Sim, o Aranha (Andrew Garfield) agora está no colegial, tem um skate, um penteado bacana e uma namorada loira (a simpática Emma Stone), mas a linha narrativa é a mesma de antigamente: menino órfão/nerd entra no laboratório, é picado por aranha radioativa, ganha superpoderes, tio e tia estão preocupados, surge um vilão mutante, e assim por diante. O problema não é a história rejuvenescida, mas a forma com que o diretor Marc Webb resolveu contá-la, apressando a construção dos personagens e priorizando os malabarismos do protagonista entre os arranha-céus de Nova York.
A roupagem 'Glee' do Homem-Aranha até possui aspectos interessantes, mas seus personagens centrais são tão mal explorados que não passam de rascunhos daqueles presentes no filme original. Aqui, o tio Ben (Martin Sheen) não consegue ensinar suas lições de moral; o vilão Dr. Curt Connor (Rhys Ifans) é um cientista brilhante que, sem motivo, quer transformar a cidade em uma 'lagartolândia'; o pai da namorada de Parker (Denis Leary) é um capitão da polícia mal encarado que, do nada, vira um cara super bacana. A superficialidade dos papéis atinge o limite do rídiculo. Mas tudo isso até seria perdoável se não existisse a 'cereja do bolo': o final do filme é assustadoramente ruim, insistindo na sequência dos maiores clichês do gênero, e destruindo qualquer chance de redenção da película. Mas isso não importa se você tem um herói que voa em 3D e uma história que todo mundo já sabe mais ou menos o que acontece, certo?
Os filmes da primeira trilogia do Homem-Aranha continham em si um reflexo de sentimentos interessantes dentro da cultura americana (especialmente a nova iorquina) pós-11 de setembro. Uma das sínteses disso acontecia no segundo longa (2004), na cena do metrô, onde o Aranha - até ali procurado pela polícia e tratado como um pária social - conta com a ajuda de cidadãos comuns para impedir um trágico acidente causado pelo vilão Doutor Octopus. Cansado, ele precisa ser carregado pelos civis, em uma cena que exprime uma comunhão simbólica entre o super-herói e o povo. Agora, Webb tenta reproduzir isso de maneira genérica e superficial. Se o Aranha antigo era um remédio heróico para o medo americano vidente na época, este é um placebo, vermelho e azul por fora e vazio por dentro.
Para fazer justiça, é preciso esclarecer que o Garoto-Aranha não tem nenhuma culpa no fracasso deste filme; carregando um fardo cruel, Andrew Garfield comprova que é um grande ator ao conferir uma atuação que esbanja displicência e humor - e que até ultrapassa, em diversos pontos, a do 'original' Tobey Maguire - e, se este filme acaba não sendo um desperdício total, é por causa da força de Garfield, que consegue segurar sozinho 136 minutos de longa, ganhando destaque dentro um roteiro previsível e decepcionante.
Um grande passeio de montanha-russa disfarçado de filme, ''O Espetacular Homem-Aranha'' faz jus ao nome, e não passa de um grande espetáculo de fogos de artifício - com alguns momentos bem produzidos, mas que ficam perdidos sem o embasamento em uma história de verdade. Pegando carona, de maneira descarada, na teia da trilogia bem construída pelo cineasta Sam Reimi, Hollywood nos deixa uma valiosa lição: quanto maior a chance de lucro, menor a responsabilidade.


