Curitiba - Morretes é uma cidadezinha linda. Localizado no Litoral do Estado, o município de 15 mil habitantes tem paisagens exuberantes que emolduram um centro histórico que confere um charme todo especial à cidade. Tem a vantagem ainda de ficar a menos de uma hora de distância da capital paranaense, o que contribui para o incremento do turismo. O município de Castro, está localizado no lado oposto, a 48 quilômetros ao Norte de Ponta Grossa. É menos famoso, mas oferece um quadro igualmente atraente e tem até um canion, o Guartelá, no seu território. Embora com paisagens e histórias distintas, as duas cidades têm mais em comum do que muitos imaginam. Ambas estão em processo de tombamento pelo governo do Estado, um processo longo que está sendo recebido de forma distinta pela população.
Enquanto a comunidade de Morretes aguarda com ansiedade o processo que se arrasta desde 1996, a população de Castro ainda vê com desconfiança o tombamento do centro histórico da cidade, aberto há três anos. Isso porque o significado da ação jurídica que constitui o tombamento muitas vezes não fica claro para a sociedade. Estabelecido por decreto federal nos já distantes anos 30, o tombamento é um instrumento jurídico que permite aos governos (federal, estadual e municipal) proteger um patrimônio público.
O patrimônio pode ser qualquer coisa, desde uma árvore (existem várias tombadas pelo Patrimônio Cultural do Paraná, mas o mecanismo está mudando e o Estado já entende que uma árvore tem um ciclo natural de vida e morte e não precisa ser necessariamente tombada, apenas protegida por lei), áreas inteiras a extensa Serra do Mar, por exemplo é um patrimônio tombado até casas e edifícios. O Estado tem quase 200 pontos tombados pelo Patrimônio Cultural, órgão ligado à Secretaria de Estado da Cultura. Os processos mais recentes e proeminentes são os que constituem os centros históricos de Castro e Morretes.
O primeiro, instalado em 2002, abrange uma área de 45 quadras com cerca de 400 imóveis. O projeto de tombamento do Centro Histórico de Castro foi solicitado pelo Ministério Público do Estado do Paraná, que entendeu que a área tem potencial histórico que deve ser preservado. O tropeirismo foi um dos fatores que levaram a esse entendimento, já que deu origem à cidade que até hoje carrega marcas dessa significativa fase da história paranaense.
''Nós temos fatos concretos no Brasil e no mundo de que o patrimônio histórico, quando preservado, só traz benefícios para o municípios. O fato de alguns empresários em Castro ainda serem contra o tombamento significa mais desconhecimento do tema do que qualquer outra coisa'', analisa a secretária de Cultura do município Cristiane Strickert. Ela revela que as críticas recebidas dos empresários locais se referem à ''falsa'' estimativa de que o tombamento possa engessar o comércio e o crescimento da cidade. ''Mas é justamente o contrário, com o tombamento, o município pode buscar recursos para preservar o patrimônio e a cultura da cidade e consequentemente incrementar a renda da região'', argumenta a secretária. E exemplifica a Lapa, outro município próximo a Curitiba, como referência de centro histórico tombado que deu certo e só trouxe vantagens para população.
Mas é bom deixar claro: só o tombamento pelo Estado, município, governo federal ou por todos eles, não é garantia nenhuma de preservação e restauração. A chefe da coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria Estadual de Cultura, Rosina Parchen, esclarece que, depois do tombamento, o município e/ou donos dos imóveis devem buscar mecanismos para preservar o bem. A confusão acerca do tema é uma das principais dúvidas que cercam o processo de tombamento.
''Outra coisa é que o dono do imóvel acha que vai perder o direito sobre ele. Isso não acontece. O tombamento garante que aquele imóvel não vai perder suas características originais, mas a responsabilidade continua sendo do proprietário'', explica. ''O que as pessoas têm que entender é o tombamento é um elogio, uma homenagem, mas uma homenagem que tem regras e normatização para garantir que o bem seja preservado'', enfatiza o arquiteto Luiz Celo Tarnowski.
Um fato curioso é que qualquer pessoa pode pedir o tombamento, desde que entenda (e os governos também) que o objeto da ação tenha um valor para a sociedade. No caso de Castro, um conjunto de edificações está sob análise para ser tombado. São casas e casarões que datam de meados do século 19 e formam um conjunto de bens importantes para a história do município e do Estado e devem se juntar a edificações e bens com o processo de tombamento já concluído, como o Museu do Tropeiro, construído no século 18; a Igreja Matriz de Sant'Anna, padroeira do Pouso do Iapó, concluída em 1860 e que possui esculturas de madeira feitas pelo Frei Mathias de Gênova, no século passado, e lustres de cristal doados por Dom Pedro II. A conclusão do processo ainda não tem data para encerrar. Enquanto isso, a prefeitura organiza debates com a comunidade para esclarecer o tema.
Já em Morretes, o processo está adiantado e dentro de um mês deve estar concluído. A prefeitura inclusive, já está com um projeto pronto para entrar com pedido de recursos assim que o tombamento seja efetivado. O projeto, ousado, também tem a Lapa como modelo e prevê a retirada de todos os postes e fios elétricos da região histórica, transformando-os em subterrâneos. A reforma tem o objetivo de resgatar as características originais das construções locais.
Lá o projeto de tombamento compreende 48 quadras e um total de 480 casas e casarões. O Secretário de Cultura de Morretes, Rogério Luis Tonetti diz que a comunidade comemora a instalação do tombamento. ''A população entendeu que a preservação dos bens traz retorno para o município. Se a cidade estiver restaurada, o turista vem e deixa dinheiro que reflete na própria cidade. Esse retorno está tão claro que a cada dois, três meses, uma nova casa de artesanato abre na região'', conta Tonetti.
Por enquanto Morretes já tem quatro bens tombados pelo Patrimônios Histórico Estadual. Em Castro, são oito casarões históricos. Curitiba lidera o ranking estadual, com 58 pontos tombados na cidade, seguida apenas de Paranaguá, com 23 bens tombados. Mas Paranaguá, apesar de ser a segunda da lista em número de bens protegidos, ainda não tem um plano de reforma concreto para o centro histórico e a maioria dos casarões antigos da região está em ruínas.

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