PRESERVAÇÃO - Saudades dos cinemas de rua
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sábado, 31 de março de 2007
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Você se lembra do Cine Morgenau? E do Condor? O Arouche e o Marabá, em São Paulo? E dos que deixaram de existir recentemente, como o Cine Ritz e o Cine Plaza, que ficavam bem no Centro da capital paranaense? Pois é, essas salas não resistiram à concorrência dos ''cinemas de shopping'' e acabaram fechando as portas.
Deixaram saudades, principalmente pra quem cresceu vendo ''E.T.'', ''Goonies'' ou o ''Exorcista'' em alguma delas. Mas, um projeto de um artista e dois publicitários curitibanos pretende recuperar um pouco dessa memória urbana.
Há alguns anos, a dupla de publicitários Rodrigo Stradiotto e Rosane Melink vêm procurando formas de divulgar seus trabalhos através de brindes incomuns, que possam defender a pluralidade de linguagens com que procuram levar no cotidiano da direção de cena. Assim, ambos procuraram parceria com o amigo e desenhista Guilherme Caldas, que então confeccionou camisetas com design diferenciado, a partir de sua grife, a Candyland Comics.
''A proposta era de fazer material de divulgação de portfolio com as camisetas da Candyland'', afirmou Rodrigo. Mas, ao final do ano passado, os publicitários queriam algo ainda mais diferente e marcante para chamar a atenção dos clientes. ''A gente procurou 'sarna para se coçar'. Eles (Rodrigo e Rosane) queriam dar algo impresso, um quadrinho ou uma gravura. Camiseta nem todo mundo usa, já o quadro não, a pessoa guarda ali. E precisava ser uma coisa que tivesse a ver com cinema, sets de filmagem'', lembrou Guilherme.
Em seguida, Guilherme passou a pensar no assunto e chegou a uma conclusão a partir de uma pergunta. ''Eu fiquei me lembrando de um cinema que tinha em São Paulo, o Cine São Luís, que era um cinema que nasceu da década de 40. Um lugar meio bizarro, com umas pichações, que, pelo gasto da caneta, devia estar ali desde 1974. Foi aí que pensei: por que não falar do cinema, de tanto lugar bacana que desapareceu?''
Guilherme então começou a desenhar o projeto. Transformou imagens das fachadas de oito ''cinemas-fantasma'' - que acabaram virando título dos quadros - em impressões de serigrafia, que serão distribuídos para os clientes. ''Gostaríamos de agregar mais coisas na produção, outras linguagens a mais além do feijão com arroz'', comentou Rodrigo.
A opção de fazer em serigrafia foi uma escolha feita a partir de um conceito, o de ''personalizar, defender a individualidade'', diz Rodrigo. ''A impressão em serigrafia é processo relativamente simples e bonito'', continua Guilherme. ''E asssim uma impressão nunca será igual à outra, sempre vai ter uma que vai ter mais tinta, ou a tela vai comer um pedaço da imagem, sei lá. Cada peça será diferente'', completa Rodrigo.
Os clientes passarão a receber os quadros de serigrafia em formato de luxo e o endereço eletrônico web.mec.com/melinkstradiotto abriga informações sobre os cinemas, inclusive com lista de filmes que ali foram exibidos. Mas e quem quiser adquirir uma peça dessas? ''Estamos pensando nisso, em fazer outras coisas com esse projeto'', adiantou Guilherme.
As imagens, que também podem virar camisetas e material para ser vendido na Candyland Comics, vão virar exposição na quarta edição do PUTZ - Festival Universitário de Cinema e Vídeo de Curitiba, que acontece entre os dias 16 e dia 19 de maio, na Cinemateca. ''Essa exposição é para os estudantes que têm a faixa dos 20 anos. Será a última geração que vai se lembrar dos cinemas de rua'', lamenta Guilherme.
Cinema de rua versus cinema de shopping - O projeto traz certa nostalgia sobre os cinemas de rua, ao passeio despretensioso que terminava em um bom filme. Entretanto, de acordo com Guilherme, não se trata apenas de algo saudosista mas também como crítica ao modo como o público lida com o cinema atualmente.
''Cinema não era coisa de orçamento, a gente não tinha que ficar se programando para ir'', afirma Guilherme, que reclama gastar muito para curtir um filme em uma visita a algum shopping center em um final de semana.
''Lembro de ter visto o Goonies no Plaza, de ver Godard no Ritz. Hoje eles não existem mais e as coisas estão à beira de perder o sentido. E esse exercício é bom para resgatar um pouco os valores. Não é um saudosismo vazio'', exlpica Guilherme.
''Hoje ver um filme no Multiplex é diferente, a pessoa nem tem tempo de pensar no filme, esquece. Vira uma experiência banal. O cara sai do cinema e já vê um monte de lugar vendendo sanduíche, um monte de loja. Não tenho nada contra, apenas acho chato o cinema ser só isso'', critica Guilherme. Para o artista, a falta de compromisso do público com o próprio filme faz com que as pessoas percam um pouco a referência e o valor do ato de ir a cinema e da própria experiência em si.
E o projeto ''Cinemas-Fantasma'' tenta trazer de volta a memória de quem teve ricas experiências nos cinemas de rua. ''Começou como uma brincadeira, trazer todo nosso imaginário, nossa lembranças. Começou como um brinde e agora virou obra de arte para os clientes'', destaca Rodrigo.


