Presentes para prender corações
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de junho de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Qualquer livro pode, em tese, virar presente. Só é preciso evitar gafes, escolhendo o título com algum critério para não ficar sujeito a constrangimentos, tipo encontrá-lo exposto num sebo da esquina um dia depois de ouvir a frase você, hein, sabe tudo das minhas preferências literárias!.
Há livros, porém, que parecem feitos para presente tal o apelo gráfico da embalagem. Alguns lembram cartões postais, com as ilustrações obtendo o mesmo destaque nas páginas que os próprios textos. É o caso dos volumes O Poeta Não Tem Fim Vinícius de Moraes e Os Estatutos do Homem Thiago de Mello, que chegam ao mercado às vésperas do Dia dos Namorados em duplo lançamento da editora Vergara & Riba.
Vinícius é contemplado com uma coletânea de poemas, letras de música e fragmentos de prosa. Os textos são apresentados em conjunto com pinturas e fotografias. A seleção tenta abranger todas as fases de sua obra, privilegiando os versos mais famosos, entre os quais aqueles imortalizados no Soneto de Fidelidade (Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure) e na canção Garota de Ipanema (Olha que coisa mais linda / Mais cheia de graça / É ela menina / Que vem e que passa / Num doce balanço, a caminho do mar).
Vinícius, como se sabe, foi um homem plural. Além de poeta e letrista, foi diplomata, jornalista e crítico de cinema. Ganhou popularidade durante a Bossa Nova compondo em parceria com Tom Jobim, e daí sucessivamente com Baden Powell, Carlos Lyra, Chico Buarque, Edu Lobo e Toquinho. Mas até chegar à música popular, sua turma era outra, dedicada às letras e formada por gente como Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.
Ao trocar de companhia e ambiente, caiu na boêmia carioca tornando-se um estereótipo de bon vivant, o homem dos prazeres e da alegria. A compilação reúne os dois momentos, mal se diferenciando das dezenas já publicadas sobre o autor não fosse o viés luxuoso da edição. É o que se pode dizer também do título dedicado ao poeta amazonense Thiago de Mello, cujos Estatutos do Homem já receberam várias publicações, a última há dois anos como parte do livro Faz Escuro Mas Eu Canto.
O livro é o mais famoso do autor. Foi lançado em 1965 e traduzido para mais de 30 idiomas. Os Estatutos, por sua vez, amplificaram o prestígio do volume alçando vôo autônomo depois de ganhar tradução do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973). O texto foi parar em pôsteres, discos e fitas cassete consagrando-se como um dos mais conhecidos da literatura verde-amarela. Foi narrado durante anos nos créditos finais do programa de entrevistas Canal Livre, que acaba de retornar à TV Bandeirantes.
Na nova edição, a tradução de Neruda acompanha o original em português. O poema é emblemático de um período, quando a arte e política caminhavam juntas, e todos sonhavam com uma América Latina livre. Apresenta-se como um manifesto humanista repleto de artigos solidários. Fica decretado / que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras / mais cinzentas, têm direito / a converter-se em manhãs / de domingo diz o segundo dos 14 artigos reunidos.
Fica proibido / o uso da palavra liberdade, / a qual será suprimida dos dicionários / e do pântano enganoso das bocas. / A partir deste instante / a liberdade será algo vivo e transparente / como um fogo ou um rio, / ou como a semente do trigo / e a sua morada será sempre / o coração do homem conclui o último artigo. O livro traz textos de apresentação do autor e de Pablo Neruda, além de pinturas da artista plástica grega Dafni Amecke-Tzitzivakos.
Serviço:
Vinícius de Moraes O Poeta Não Tem Fim e Thiago de Mello Os Estatutos do Homem. Editora Vergara & Riba. Tel. (11) 4612-2866. E-mail: [email protected].


