A aventura será maior quanto menor ou mais frágil for o herói. Se Davi também fosse um gigante, sua vitória sobre Golias nem seria lembrada. Então imagine ter só seis anos e ser convidado para montar num caminhão e rumar para a selva. Em 1955, era assim que eu via o entorno de Londrina, então entre imensos cafezais e matas sombrias. Meu avô João trabalhava na Empresa Elétrica de Londrina, e ia chefiar uma turma nalgum serviço em sítio ou fazenda que, hoje vendo com os olhos da lógica, devia ser pertinho mas, naquele tempo, me pareceu uma longa viagem, até porque a primeira de que lembro.

Os homens já estavam na carroceria onde também subi empolgado - mas vô João falou não, você vai na cabine comigo. Do trabalho que lá fizeram nada lembro, mas lembro bem que na volta apareceu na estrada uma caixa de papelão amarrada por fita com laço, como os presentes que o Papai Noel deixava na árvore de Natal.

Tem um presente na estrada, falei, mas o vô falou que era um pega-tonto, e eu, sem entender, pedi para parar o caminhão que eu ia buscar aquilo. O vô riu, o motorista continuou até que gritei, era um presente, eu tinha visto e era meu! Muito bem, mandou o vô, vamos voltar para ele pegar o presente.

Vitorioso vi o motorista fazer a manobra na estradinha estreita, retornando no poeirão. Perguntei se eu podia ficar com a caixa, o vô falou claro, você quem achou, é sua. O motorista riu e não entendi porque. O coração batia como eu ainda não sabia que coração bate, uns carros tinham cruzado por nós e assim alguém podia chegar antes!

Mas a caixa estava lá. Desci correndo, tentei levantar a caixa, era muito pesada - e estava coberta daquela poeira vermelha que a mãe detestava nos móveis de casa. Gritei que era muito pesada pra mim, e então vi que o vô também tinha descido do caminhão e dois de seus homens se postavam na estrada, atentos a qualquer veículo que surgisse do poeirão. Meu avô me protegia e aquilo me fez crescer, ah, eu ia então abrir a caixa!

Desatei o laço, vendo que era uma caixa de papelão grosso como as do comércio, e o vô agachou ali junto. Perguntei se ele achava que a caixa teria só latas de óleo, e ele disse quem sabe, é preciso abrir pra saber, né?

Abri a caixa com o coração batendo na boca, enquanto passava devagar um jipe alertado pelos homens do vô. O motorista buzinou, o vô acenou, vejo até hoje como se fosse agora, o poeirão baixando e eu puxando as quatro folhas que se cruzavam fechando a caixa. Então apareceram os tijolos empilhados lá dentro e os homens riram. O vô mandou levarem a caixa para o caminhão, tijolos sempre podiam servir, e continuamos a viagem, com a mesma paisagem que eu tinha admirado agora borrando de lágrimas.

Mas quando descemos do caminhão e os homens se foram, o vô falou que eu tinha feito uma bela coisa pois, com aquele poeirão, algum carro ou jipe podia bater naquela caixa que graças a mim tiraram da estrada. Aí me senti herói e enxuguei as lágrimas.

Em casa, a mãe estranhou minha cara enlameada mas o vô disse ah, é que ele enxugou choro com as mãos sujas. Minha mãe já se encrispou, porque é que eu tinha chorado? Chorou de alegria, disse o vô, porque ganhou um presente de estrada - e piscou para mim:

- Ganhou também uma lição, não?

- Que lição, vô?

Ouvir os mais velhos.

Mas disse que tinha um presente mesmo para mim, um tostão, com que comprei um gostoso picolé. Depois vida afora, sempre que bati cabeça por não ouvir os mais velhos, lembrei do “presente de estrada” de meu avô. E fui colecionando picolés, as pequenas alegrias, em vez de me encantar com os presentes-de-tonto, as grandes ilusões.

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