'Presença': uma casa mal-assombrada nas telas
Dirirgido por Steven Soderbergh, filme em cartaz em Londrina é um conto de terror e um drama sobre a moralidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de abril de 2025
Dirirgido por Steven Soderbergh, filme em cartaz em Londrina é um conto de terror e um drama sobre a moralidade
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Já assisti, ao longo de muitas décadas, minha numericamente respeitável cota de filmes de casas mal-assombradas, e confesso minha cautela, sempre presente assistindo qualquer adição a esse subgênero que o tempo não somente desgastou como foi deixado à beira do caminho, ferido de morte por diretores de ralo ou nenhum talento.
No entanto, o diretor Steven Soderbergh, eternamente um incansável escudeiro das novidades, e seu co-roteirista David Koepp mais uma vez subverteram minhas expectativas, transformando a história minimalista de “Presença” em peculiar conto sobrenatural: leve em terror, mas pesado no coração.
A grande oferta aqui, e ponto do imediato interesse que o espectador deve abraçar sem reservas, é a câmera de Soderbergh, instrumento (quase) sempre operando por ele mesmo em planos-sequência que são o motor da presença em si naquela casa (ninguém usa o termo fantasma durante a narrativa), tornando-o um exercício visual extremamente interessante.
A família é observada à curta distância, com a platéia eventualmente percebendo que a tal presença não é necessariamente maligna, e nem mesmo está ciente do porquê de ela estar ali naquela casa, e ao redor daquela família que acaba de se mudar.
O filme gira principalmente em torno de Chloe (Callina Lang), que está de luto pela morte de sua melhor amiga por overdose por opioides. O irmão dela, Tyler (Eddy Maday) tem uma veia cruel e busca popularidade na escola. Ao mesmo tempo, a mãe, interpretada por Lucy Liu, está com frequência etilizada e parece prestes a ser presa por um crime de colarinho branco (do qual nunca ficamos sabendo os detalhes). Felizmente, o pai de Chloe, interpretado por um dos principais atores da série “This is Us”, Chris Sullivan, é solidário, embora também preocupado com a noção de que os crimes de sua esposa podem torná-lo culpado aos olhos da lei. Chloe também é perseguida romanticamente por um garoto mais velho, Ryan (West Mulholland), cuja presença tem a intenção de afastar Chloe do convívio familiar.

IDENTIDADE
“Presença” oferece muitas ideias para seguir. Mas é um trabalho que pode e deve ser visto como exercício de produção cinematográfica para Soderbergh, que se vale de inovações tecnológicas dos últimos anos para imprimir ao filme uma identidade única.
Ele continua a vibração experimental que iniciou após sua curta aposentadoria precoce, há alguns anos. Por sua natureza, é filme diante do qual você deve ter paciência, ainda que sejam somente 84 minutos; o estilo da narrativa demora um pouquinho para entrar por causa justamente do quão pouco convencional ele é. No entanto, na segunda metade, à medida que se torna mais emocionalmente fundamentado e as apostas aumentam, “Presence” caminha a passos mais curtos para seu desfecho-surpresa.
O elenco é excelente. Callina Lang/Chloe é um achado no papel mais importante da trama. Eddy Maday inicialmente caminha para criar um valentão Tyler quase sociopata, mas conforme o filme avança, o melhor de seu personagem começa a aparecer.
Enquanto isso, Chris Sullivan é tocante como o pai sobrecarregado mas amoroso, alguém que vive para se arrepender de uma culpa em tudo o que sua esposa possa ter feito. Lucy Liu é matizada como a mãe amorosa, mas preocupada e ansiosa, que sabe que seu tempo pode estar se esgotando e tenta inventar desculpas para suas ações, dizendo bêbada à sua filha favorita que o que quer que ela tenha feito, foi por amor à família. Para crédito de Liu, ela nunca tenta diluir essa personagem e consegue manter nossa adesão o tempo todo.
Embora sua natureza experimental signifique que “Presence” será um dos esforços mais específicos de Soderbergh, além de tudo é tecnicamente impecável e comovente quando você se acomoda. É um exercício cativante para um diretor que nunca deixa de inovar.
Basta dizer que, no final, “Presença” é bem menos um filme de terror ou mesmo uma história de fantasma tradicional do que um drama sobre moralidade pessoal, responsabilidade, auto-investigação e evolução pessoal, contado da perspectiva de alguém que não está mais vivo.


