São Paulo, 27 (AE) - A segunda das três semifinais do 2.º Prêmio Visa de MPB - Edição Vocal foi realizada segunda-feira, na Sala Rubens Sverner, do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, com os quase 350 lugares da platéia tomados não pela torcida dos candidatos, mas por gente torcendo pela música brasileira. O público foi tão receptivo às duas jovens candidatas paulistanas - cantoras que atuam na noite da cidade e, por isso, seria lícito supor que tivessem entre os assistentes fãs já conquistados em outras ocasiões - quanto à cantora que veio de Minas Gerais e ao cantor baiano que encerrou a noite. Como não poderia deixar de ser, aliás. Eram quatro concorrentes extraordinários.
O Prêmio Visa de MPB é uma produção da Rádio Eldorado, patrocinada pelos cartões Visa. Esta segunda edição, que premia cantores, cantoras e grupos vocais, é única no gênero. Os festivais - e hoje, infelizmente, são poucos e se dedicam, normalmente, a revelar autores, premiando, secundariamente, intérpretes. No Visa, os intérpretes são a razão de ser. E o prêmio para os cinco primeiros colocados é o maior da história nacional dos concursos: são R$ 63 mil, dos quais R$ 40 mil para o primeiro colocado, cujo nome será conhecido na finalíssima, a ser realizada no dia 31 de maio. O vencedor terá o prêmio adicional de realizar um disco pela gravadora Eldorado.
As inscrições, que chegaram a quase 1.300, vieram de todo o País. O presidente do júri, maestro Nelson Ayres, coordenou a triagem que selecionou os 24 intérpretes participantes da etapa eliminatória. Durante seis semanas, sempre às segundas-feiras, eles mostraram sua arte, quatro a cada noite. Foram selecionados 12 para as semifinais. O segundo grupo de quatro candidatos apresentou-se na segunda-feira. Na semana que vem, apresentam-se os últimos quatro (a ordem de apresentação foi determinada por sorteio) e, ao fim da noite, se anunciam os nomes dos cinco classificados para a final.
A primeira a cantar na segunda-feira foi a paulistana Ana Luiza. Como tem sido regra, saiu-se melhor, agora, na semifinal, do que na eliminatória, o que comprova o acerto dos jurados e faz subir ainda mais o conceito do prêmio. Ana Luiza tem bela voz que a deixa confortável para partir de regiões graves em busca de certos arroubos curiosamente contidos, entredentados, claros nos gestos também fortes, mas nunca abertos demais. Ana Luiza mostra-se melhor quando canta músicas mais lentas e foi assim nos dois (dos quatro que cada candidato, por regulamento, tem de apresentar) que escolheu de Tom Jobim: "Modinha" (com Vinícius de Morais), que começou a capela, e "Retrato em Branco-e-Preto" (com Chico Buarque).
Estilo oposto ao dela, a mineira Tahta é exuberante, explorando pulso e ritmo, extrovertida. Abriu sua apresentação com "Mais uma Boca", obra-prima de Fátima Guedes, e a encerrou com uma bela canção, "Heranças", composta pelo pai, o grande pianista Aécio Flávio, que a estava acompanhando. E recriou de forma muito interessante o samba "Pedro Brasil", de Djavan. Ela é um sucesso na noite mineira e tem sido também no Rio.
A terceira concorrente foi a paulistana Luciana Alves, a mais jovem do concurso. Aos 22 anos, é uma artista pronta, mas em evolução. A atitude é sóbria e graciosa, a voz de perfeita afinação - o que permite a ousadia de interpretar "Olha Maria"
obra da maturidade de Tom Jobim e Chico Buarque, com originalidade e precisão. E, encerrando a noite, o baiano Tito Bahiense novamente virou o estilo - ele é todo ritmo, suingue, invenção. Tem personalidade e, no comando de ótimo grupo, mostra-se líder raro. Usou "Eu Sambo Mesmo", de Janete de Almeida, para, de certa forma, narrar a história do samba moderno: os instrumentos, sobretudo a bateria, começaram pulsando em bossa nova, à qual foram mesclados pulsos caribenhos e depois tambores baianos. Terminou com uma inteligente combinação de "Feitiço da Vila" (Noel Rosa) e "Ave-Maria do Morro" (Herivelto Martins). Mais uma vez, o Prêmio Visa prova que temos grandes cantores. Falta a chance para que apareçam e o concurso é um grande passo nesse sentido.

mockup