PRÊMIO Sul-africano ganha o Nobel de Literatura
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quinta-feira, 02 de outubro de 2003
Haroldo Ceravolo Sereza<br> Agência Estado 
John Maxwell Coetzee, mais conhecido como J.M. Coetzee, é o mais novo vencedor do Prêmio Nobel de Literatura e o segundo sul-africano a recebê-lo - em 1991, a escritora Nadine Gordimer fora agraciada com os 10 milhões em coroas suecas que, atualmente, equivalem a US$ 1,3 milhão.
O sul-africano já venceu também o prêmio inglês Booker Prize, pela obra ''Vida e Época de Michael K.'' (''Life and Times of Michael K.''), em 1983, e por ''Desonra'' (''Disgrace''), em 1999.
O nome de Coetzee foi anunciado ontem e não pode ser considerado uma surpresa, a não ser para ele próprio (desde há muitos muitos anos frequentava a lista de candidatos ao Nobel): segundo um comunicado oficial, divulgado pela Universidade de Chicago, onde dá aulas de filosofia e literatura atualmente, o escritor foi acordado, às 6 da manhã, por um telefonema de Estocolmo, informando-o do prêmio que, disse, nem sabia que seria divulgado ontem. Coetzee afirmou também que trabalha ''numa nova ficção e que deve lançar em breve um tradução de poetas holandeses''.
O romancista, de 63 anos, segundo a Academia Sueca, retrata, em ''incontáveis aspectos, o desconcertante envolvimento dos marginalizados'' na vida social. Vários de seus livros foram publicados no Brasil, pela Companhia das Letras e pela Best Seller. A Companhia das Letras anunciou que, dentro de dez dias, colocará no mercado novas versões de livros seus, com uma nova capa, já mencionando o prêmio. Entre suas principais obras, destacam-se ''Desonra'' (1999), ''Vida e Época de Michael K'' (1983) e ''No Coração do País'' (1977). Seu mais recente livro é ''Elizabeth Costello: Eight Lessons'' (2003), que deve também ser publicado no Brasil.
O comunicado divulgado pela instituição sueca afirma também que ''o interesse de Coetzee dirige-se, especialmente, a situações nas quais a distinção entre o certo e o errado, ainda que clara, não servem para nada''. E diz ainda que, ''mesmo quando suas próprias convicções ficam expostas, como na sua defesa dos direitos dos animais, ele elucida as premissas nas quais se baseiam em vez de simplesmente defendê-las.''
Coetzee, branco como Nadine, é considerado ora um autor marcado pelo apartheid, ora um autor do pós-apartheid, que por vezes trata da divisão racial da sociedade sul-africana, mas que não se prende a esse momento histórico. Seus livros podem se passar tanto na África do Sul quanto em lugares imaginários - o que levou, junto com outros motivos, a Academia Sueca a afirmar que, para ele, o regime sul-africano pode surgir em qualquer lugar. ''Sobre Vida e Época de Michael K'', por exemplo, Nadine Gordimer escreveu que ''Michael K é um ser humano real que vive num corpo individual, mas para alguns de nós ele será a totalidade negra da África do Sul, seja qual a variação de cor em que o Ato de Registro da População Sul-Africana os enquadre; para alguns, ele será o prisioneiro dos campos de Auschwitz ou de Stálin. Outros verão o lábio partido (o personagem nasce com lábio leporino e, por conta disso, é desde o nascimento colocado a certa distância do convívio social) e a fala abafada como a distorção de personalidade que as leis raciais sul-africanas provocaram, de uma forma ou de outra, em todos nós que vivemos aqui, brancos ou negros.'' (Ao saber que seu colega recebera o Nobel, Nadine afirmou estar encantada e que Coetzee é ''um bom amigo e grande escritor.'')
O próprio nome do personagem deste livro remete às criações de Franz Kafka, autor de quem Coetzee é considerado um herdeiro. Tal filiação foi lembrada por Stephen Watson, diretor do Departamento de Inglês da Universidade do Cabo. ''Coetzee tem a capacidade de ressaltar, como poucos de seus contemporâneos fizeram, algumas das mais imponderáveis questões da existência'', disse Watson sobre seu amigo, com quem compartilhou durante 30 anos a cadeira de inglês na UCT. ''Era de uma presença intelectual tão formidável que não podia ser popular no sentido comum da palavra, mas a admiração por ele era incrível.''
Coetzee, nascido em 1940, passou a maior parte de sua vida adulta pelo mundo. Depois de se graduar na África do Sul, em matemática e língua inglesa (sua língua materna, apesar dos antecedentes holandeses), Coetzee mudou-se para Londres, em 1961, onde foi trabalhar como programador de computadores. Posteriormente, em 1965, deixou a capital britânica e mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou Linguística e Literatura no Texas e em Nova York. Depois de dar aulas na Universidade Estatal de Nova York em Buffalo, voltar à África do Sul. Em 2002, mudou-se para a Austrália, onde vive com a mulher. Atualmente, dá aulas em Adelaide e em Chicago.
O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, felicitou Coetzee, que já ganhara prêmios do Congresso Nacional Africano, partido do governo atualmente, pelo prêmio. ''Esta vitória de J.M. Coetzee se une às honras concedidas a alguns de nossos compatriotas. Em nome da nação sul-africana e do continente, saudamos a nosso último laureado com o Nobel.'' A escolha também foi elogiada, entre outros, pelo prêmio Nobel de 1998, José Saramago (''É um grande escritor, com uma postura ética fora do comum''), pelo moçambicano José Eduardo Agualusa (''Foi uma bela notícia e uma escolha justíssima'', porque Coetzee ultrapassa as fronteiras de seu país ''e até do continente africano'') e pelo escritor espanhol Jorge Semprún (''É perspicaz, lúcido e violento, no bom sentido da palavra, com a sociedade do apartheid; e a descreve com muita força e sutileza''). Uma crítica isolada foi a feita pela portuguesa Maria Teresa Horta, que considerou a escolha machista: ''As mulheres continuam sendo menosprezadas pela assembléia de homens sexistas'' e sugeriu que as autoras Joyce Carol Oates (EUA) e Sophia de Mello Breyner (Portugal) poderiam ter recebido o prêmio.
A polonesa Wislawa Szymborska (1996) foi a última mulher a receber o prêmio. Os últimos laureados foram: Imre Kertész, V.S. Naipaul, Gao Xingjiang, Gunter Grass, José Saramago e Dario Fo.


