Rio, 19 (AE) - Desde o dia 8 de outubro, quando foi anunciado o Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o escritor português José Saramago não teve tempo nem concentração para escrever uma frase sequer. "Do ponto de vista do profissional da palavra, a premiação foi um desastre", brincou Saramago hoje
no café da manhã que o Consulado de Portugal ofereceu para apresentar a comissão de 17 escritores vindos para a Bienal do Livro. "De lá para cá, só escrevi o discurso que fiz na Academia Sueca". O escritor reconheceu, porém, que o Nobel deu visibilidade à literatura de língua portuguesa, dentro e fora dos países que a falam.
José Saramago está no Rio desde domingo e amanhã (20), às 19 horas, faz a palestra de abertura da 9.ª Bienal do Livro, que ocorre até o dia 2, no Riocentro. Na coletiva de hoje, ele deu um show de modéstia e simpatia. Primeiro, recusou-se a falar em separado dos outros 16 escritores. "Seria uma indelicadeza com eles, pois todos temos valor literário e o fato de eu estar em destaque é mero acaso", justificou-se. Mas depois rendeu-se à evidência de ser o mais famoso e lido entre eles e não se recusou a falar sobre qualquer assunto.
Começou afirmando que o Prêmio Nobel cria um clima favorável à literatura de língua portuguesa, pois não apenas despertou o interesse em vários lugares do mundo sobre sua obra e de outros escritores do país, como o fez também dentro de Portugal. "Soube de gente praticamente iletrada que disse ser o Nobel tão importante quanto a Copa do Mundo e que, a partir dele
sentiam vontade de ler e conhecer os autores portugueses", contou Saramago. "Fora de Portugal, tenho sabido de traduções de meus livros em países dos quais pouco tinha ouvido falar e em línguas que me soam totalmente estranhas".
O autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Memorial do Convento" disse ainda ter se surpreendido com a reação dos outros países de língua portuguesa, incluindo o Brasil. "Eles comemoraram como se a premiação fosse deles, numa indicação de que existe atmosfera favorável a um intercâmbio entre estes países", disse.
Apesar de safisfeito com a repercussão de sua premiação em Portugal, Saramago deixou claro que não pretende morar lá. Ele foi embora no início dos anos 90, magoado com as críticas que recebeu de setores conservadores do Estado e da Igreja Católica pelo romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Seu nome chegou a ser excluído da lista dos indicados para o Prêmio Literário Europeu pelo então ministro da Cultura. Desde então, ele passou a morar na Ilha de Lanzarote, situada em território espanhol, com a mulher Pilar del Rio.
"Acho que o meu país está onde eu estiver e o mais correto é dizer que não pretendo mais morar lá mas nunca deixarei de viver em Portugal", explicou Saramago.

mockup