Prêmio Multicultural Estadão divulga vencedores
São Paulo, 13 (AE) - Apurados os cerca de 3 mil votos de um colégio eleitoral composto por artistas, produtores culturais
críticos e intelectuais de todo o País, foram conhecidos hoje, às 13 horas, os vencedores da terceira edição do Prêmio Multicultural Estadão. Seis auditores da Arthur Andersen S/C trabalharam a partir das 9 horas na sede do jornal, no bairro do Limão, em São Paulo, apurando os votos, que eram repassados para computadores.
Os artistas vencedores são o escritor, cartunista, roteirista e humorista gaúcho Luis Fernando Verissimo, colaborador do jornal "O Estado de S.Paulo"; o diretor de teatro paulista José Celso Martinez Corrêa e o músico mineiro Marco Antônio Guimarães, compositor do grupo Uakti. Como fomentador cultural, foi premiado o diretor da Pinacoteca do Estado, Emanoel Araújo.
Os prêmios serão entregues em 19 de maio, em uma festa no Sesc Pompéia. Cada artista receberá, além de R$ 30 mil, uma escultura criada especialmente para a ocasião pela artista plástica Nina Moraes. Surpresa - Emanoel Araújo, que dirige a Pinacoteca do Estado, diz ter se surpreendido com o resultado, muito embora saiba que conquistou uma série de admiradores ao longo do trabalho desenvolvido à frente do museu. Foram quase sete anos de trabalho, que permitiram transformar o museu em uma das instituições culturais de maior destaque no País.
"Estou comovido porque isso evidencia o trabalho e tudo o que estimula o esforço privado ou coletivo no País, com o amor e a entrega que ele exige, é muito importante", diz. Esse artista e administrador cultural, nascido há 58 anos em Santo Amaro da Purificação (BA), faz questão de deixar claro que o prêmio não é apenas dele. "Venho desenvolvendo um trabalho que não é só meu, mas de uma equipe inteira; sou uma espécie de alavanca", conclui.
O diretor José Celso Martinez Corrêa foi acordado hoje com a notícia da premiação. Na véspera, esteve até as 6 horas envolvido com os ensaios de "Cacilda!" que reestréia neste fim de semana com a atriz Leona Cavalli no papel principal. "Fico felicíssimo porque o Prêmio Multicultural Estadão reconhece e dá aval a um trabalho polêmico, que tem um grau de rejeição muito grande", afirmou o diretor. Um aval reforçado pela forma como os vencedores são escolhidos. "O fato de eu ter sido eleito por 3 mil pessoas, por outro lado, mostra que, mesmo não sendo popular, meu trabalho tem também uma aceitação muito grande".
Segundo o diretor, a melhor consequência da premiação é justamente esse aval. "Tenho trabalhado sempre como um guerreiro, tentando pôr conceitos novos no palco, porém com extrema dificuldade financeira, sem jamais ter conseguido um reconhecimento pleno", afirmou. "Meu trabalho tem um potencial muito maior e um prêmio como esse abre outras possibilidades de apoio financeiro, o que me dá esperanças de crescimento artístico". Check-up - O diretor afirmou ter pensado remotamente na possibilidade de ganhar e, na ocasião, pensou em utilizar o dinheiro para dar entrada num apartamento, para livrar-se do pesadelo do aluguel. No mês passado, porém, uma crise de angina, da qual ainda não se recuperou totalmente, fez com que mudasse de planos. "Minha saúde anda frágil, mas eu estava sem recursos para me cuidar e esse dinheiro chega de forma milagrosa; pelo menos parte dele vou utilizar para fazer um check-up", comentou.
Prêmios não são uma novidade na carreira do escritor Luis Fernando Verissimo, que recebeu a notícia da sua premiação hoje, durante o almoço. "Sempre é bom ganhar, ainda mais nessa companhia tão ilustre", disse o escritor, elogiando os outros vencedores. Segundo o escritor, o valor de R$ 30 mil do prêmio não é tão importante quanto o seu significado.
Verissimo, que está de partida para Paris, onde fica até o dia da solenidade da entrega do prêmio, trabalha atualmente numa espécie de releitura da carta de Pero Vaz Caminha. O livro, a ser publicado pela Editora Objetiva, será lançado por ocasião das comemorações dos 500 anos do Descobrimento. Ele é autor de mais de 40 livros, além de ser saxofonista nas horas vagas e muito conhecido pela sua versatilidade, capaz de transitar por diversas mídias.
Um dos fundadores do Grupo Uakti e criador de algumas das trilhas do Grupo Corpo, o compositor Marco Antônio Guimarães comemorou o resultado. "Todo prêmio cultural é importante para o artista", afirmou. "É sempre bom receber". De comportamento tímido, Marco Antônio faz hoje uma das mais inventivas e originais músicas no Brasil, além de ter um trabalho admirável como luthier, fabricando os instrumentos "esquisitos" que celebrizaram o Uakti. Seleção - O processo de escolha do Prêmio Multicultural Estadão, que começou a ser desenvolvido ainda no ano passado, consiste na escolha de dez artistas e quatro fomentadores como indicação inicial. A escolha é feita por uma comissão de seleção, que este ano teve como integrantes o filósofo Gerd Bornheim, a pianista e ex-secretária de Cultura de Minas Berenice Menegale, o antropólogo Roberto DaMatta, o filósofo Renato Janine Ribeiro, o tradutor e ensaísta Paulo Cesar de Souza, o compositor José Miguel Wisnik, o crítico e roteirista de cinema Jean-Claude Bernardet, o escritor Wilson Bueno e o artista gráfico Rogério Duarte.
Essa comissão se reuniu por duas vezes em outubro e novembro, em São Paulo. Os nomes que escolheram foram depois propostos em cédulas para 5 mil integrantes do colégio eleitoral em todo o País, até o resultado apurado hoje. Além dos quatro vencedores, também foram indicados o poeta mineiro Carlos ávila, o cineasta Maurice Capovilla, o editor Samuel Leon, a escritora Zulmira Ribeiro Tavares, a professora Maria Isaura Pereira de Queiroz, o cantor e compositor Arnaldo Antunes, o percussionista Carlinhos Brown, o cineasta Júlio Bressane, o psicanalista Jurandir Freire Costa e a Quasar Companhia de Dança.
O objetivo do Prêmio Multicultural Estadão é destacar artistas com três principais características: que fortaleçam a singularidade da cultura brasileira, modifiquem a relação do homem brasileiro com o mundo e promovam a compreensão e a reflexão crítica sobre nossa sociedade. Pelo seu conceito, não é segmentado por setores nem por categorias, compreendendo que, no mundo contemporâneo, as fronteiras e as interfaces culturais se renovam constantemente.
A festa de premiação vai coincidir com a abertura da exposição "Território Expandido", na área de convivência do Sesc Pompéia, que reunirá obras feitas especialmente por 14 artistas para homenagear cada um dos indicados para o prêmio. A idéia da curadora da mostra, Angélica de Moraes, é montar um evento que permaneça após a entrega dos prêmios e ocupe um espaço na agenda cultural da cidade.





