Prêmio Eldorado revela seus primeiros talentos
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segunda-feira, 02 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 03 (AE) - A primeira eliminatória do Prêmio Eldorado de Música, o mais importante de música erudita no Brasil, reuniu ontem, em São Paulo, três jovens músicos numa prova que atraiu grande público ao Teatro Cultura Artística. Na décima edição do prêmio, projeto que já dura 15 anos, a predominância do piano faz prever uma séria disputa entre os herdeiros de Horowitz, mas já revelou um talento em outro instrumento, o saxofonista Fabiano Martins, que dividiu o palco, anteontem, com os pianistas César Ferrari e Marcelo Cesena, ambos alunos de Caio Pagano na Arizona State University.
O primeiro a tocar foi César Ferrari, natural de Jaguariúna, interior de São Paulo. Ferrari, de 27 anos, já disputou o prêmio, mas não foi classificado na última edição. Num programa que reuniu peças de Milhaud, Chopin e Villa-Lobos, o pianista demonstrou domínio técnico, habilidade e também certo nervosismo que não chegou a perturbar sua interpretação. Ferrari
inclusive, atribui a desclassificação anterior ao peso desse "deslize", eventualmente responsável pela "falha de memória" há dois anos.
Ele voltou a disputar o prêmio porque o considera fundamental na carreira de grandes instrumentistas - só para citar dois, Caio Pagano e Cláudio Cruz foram revelados pelo Prêmio Eldorado. Desde então, sua leitura de Villa-Lobos amadureceu. "Villa-Lobos é muito livre e sua obra comporta diferentes interpretações", observa. Ferrari escolheu Milhaud para fazer companhia a Villa-Lobos por identificar no contemporâneo do brasileiro algo dessa liberdade e do amor pelo País. "Toco muito os compositores brasileiros nos Estados Unidos e selecionei Milhaud por sua ligação com o Brasil", justifica.
O candidato Marcelo Cesena selecionou o compositor argentino Ginastera, morto em 1983, para encerrar sua apresentação, que começou com a Partita nº 6 de Bach. Ganhador de uma bolsa da Pirelli, Cesena tem feito concertos regulares nos Estados Unidos e na Europa, divulgando compositores contemporâneos latinos como Ginastera e Almeida Prado, mas tem predileção por Bach. "Sou um pianista novo e tenho de experimentar muito, mas reconheço que a música de Bach vai ser sempre nova, permitindo sempre diferentes interpretações", diz.
Cesena tocou também peças de Fauré e Vieira Brandão. "Escolhi Fauré por representar o outro lado da criação pianística", justifica. "Enquanto Bach explora a concentração, a clareza, a polifonia e o equilíbrio, Fauré segue explorando a sonoridade", analisa. Cesena, como César Ferrari, também fez curso de aperfeiçoamento com a professora Lina Pires de Campos e foi classificado em vários concursos nacionais de piano, além de ter atuado como solistas em concertos dirigidos por Diogo Pacheco e Aylton Escobar.
Perfeccionista, ele revela suas referências maiores, Nelson Freire e Martha Argerich, apontando o Prêmio Eldorado como ponto de partida para uma carreira profissional que o leve ao Olimpo desses dois grandes nomes do piano. "O fato de participar do prêmio já traz prestígio para qualquer instrumentista", diz o pianista de 29 anos, cuja interpretação de Bach impressionou o público.
O saxofonista Fabiano Martins, o mais jovem da primeira eliminatória, tocou um programa eclético com peças dos compositores Paul Creston (1907-1985), Villa-Lobos (1887-1959) e Alfred Desnclos (1912-1971). Martins, natural de São Paulo, estuda saxofone desde os 15 anos. Mora atualmente em Belo Horizonte, onde cursa o penúltimo período de graduação na Universidade Federal de Minas Gerais. Vencedor por dois anos consecutivos do concurso Jovens Solistas, promovido pela universidade mineira, o saxofonista participa de um octeto erudito e toca também num grupo de rock.
"Não tenho preconceito musical e gosto tanto de John Coltrane como de Teco Cardoso", esclarece, admitindo, porém, certa inclinação pela escola francesa, influência de seu professor Dilson Florêncio. Martins, para provar seu virtuosismo
trocou de saxofone nas três peças selecionadas, mostrando sua habilidade no sax soprano ao interpretar com vigor a Fantasia composta por Villa-Lobos.
Fabiano Martins é um dos poucos instrumentistas de sopro numa edição que tem sete pianistas concorrendo entre os 24 participantes selecionados. Eles estão sendo avaliados por um júri fixo formado pelo crítico J. J. de Moraes, do Jornal da Tarde, pela pianista, cravista e pesquisadora Maria José Carrasqueira e pelo clarinetista Luca Raele, do grupo Sujeito a Guincho, que já ganhou o Prêmio Eldorado. A segunda eliminatória será realizada na segunda-feira, às 19 horas, no mesmo Teatro Cultura Artística (Rua Nestor Pestana, 196), em São Paulo, reunindo o pianista Rafael von Gehlen, o violonista Aliéksey Vianna e o flautista Enzo Giacomini. A entrada é franca e os ingressos podem ser retirados com antecedência na bilheteria do teatro.


