Prêmio Eldorado mostra talento de novatos executando Bach e Brahms
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quarta-feira, 08 de setembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 09 (AE) - Os efeitos da padronização cultural no mundo globalizado ainda não foram devidamente avaliados, mas é certo que o homem do fim de século parece menos capacitado para entender o mundo contrapontístico de Bach do que seu ancestral do século 18. No mundo todo, jovens tecnicamente preparados encontram dificuldades para entender o conflito bachiano de diferentes vozes perseguindo uma só meta - de resto, um conflito não só religioso como filosófico. Isso não tira o mérito de jovens e talentosos músicos, mas dá o que pensar sobre o futuro da música.
Na quarta eliminatória do Prêmio Eldorado, realizada ontem, a ausência de conflito pôde ser notada não só em Bach como num romântico como Brahms. Como alguém submetido ao poder de um bloco cultural monolítico pode entender o espírito do romantismo alemão? O que significa tocar bem? São perguntas pertinentes numa época em que a técnica parece, num contexto histórico e político, até mais importante do que as emoções.
A performance do primeiro candidato, o violonista Alexandre Moschella, aparentemente irretocável, reafirma essa dúvida. Não é articulação da sintaxe de Moschella que se reprova
mas algo que está aquém da interpretação: a experimentação. Liberar a consciência de uma leitura mecânica de Bach foi a meta de intérpretes como Glenn Gould. Moschella, cuidadoso, parece entender muito mais a exploração das cordas paralelas por um contemporâneo como Edino Krieger do que o conflito contrapontístico de Bach, o calcanhar de Aquiles de todos os candidatos que ousaram tocar suas composições nas eliminatórias.
A interpretação de Brahms pela clarinetista Renata Menezes parece demasiadamente lógica para um movimento como o allegro apassionato da "Sonata em Fá Menor opus 120, n.º 1". É uma célula enlouquecida numa sonata de caráter beethoveniano, assimétrica, cujas ligaduras funcionam como armadilhas para o intérprete. Renata precisaria ser suficientemente corajosa para abandonar a lógica em função de uma peça que é passional, mas seria pedir demais a uma jovem que vive justamente numa época em que paixão e ideologia viraram palavrões.
Renata Menezes também se mostra mais à vontade com os contemporâneos, especialmente o brasileiro Ronaldo Miranda, de quem interpretou a peça "Lúdica I para Clarineta-Solo". Compreensível. A obra de Miranda é um exercício nervoso, que prepara o ouvinte para um breve movimento lento que justifica seu título. Primeiro a técnica, depois o lúdico. O terceiro candidato, o trompetista José Torres só tocou obras de modernos (Guarnieri, Honegger, Enesco e Herbert Clarke). Acompanhado pela pianista Denise Machado, ele interptetou a "Legenda de Enesco" com segurança, mas não foi possível fazer muito pela peça de Clarke, um capricho de gosto duvidoso que passa por vários registros.


